domingo, 7 de setembro de 2008

Avanti! Jazz e Revolução



Giovanni Mirabassi
Avanti!
Stretch Records 2000

Pegar num repertório constituído exclusivamente por hinos e canções revolucionárias e trabalhá-las sozinho ao piano, numa abordagem criativa e improvisada, parece, à primeira vista, uma missão quase impossível. Não pela falta de valia musical do material mas antes pela forte carga ideológica do mesmo, que impede quase em absoluto que o ouvinte (e o próprio intérprete) se abstraia do seu contexto histórico e político e se entregue, em exclusivo, aos seus atributos musicais.
No entanto foi esse o desígnio assumido pelo pianista italiano Giovanni Mirabassi no álbum Avanti! editado em 2000 pela Stretch Records. Temas emblemáticos da guerra de Espanha, da guerra de secessão norte-americana, da revolução cubana ou da revolução russa cruzam-se numa abordagem que, longe de incitar à luta de classes, apela antes à vida e à liberdade, com uma sensibilidade que lhes incute algo de novo, embora respeitando a sua identidade e historicidade.
Mirabassi é um auto-didacta, nascido em Perugia em 1970 mas radicado em França desde 1992. Sem formação académica, aprendeu piano a ouvir discos de Bud Powell, Art Tatum e Oscar Peterson, mas a sua principal influência provém, sem dúvida, do seu compatriota Enrico Pieranunzi. É em França, no entanto, que edita o seu primeiro disco em 1996, Dyade - En bonne et due forme, com Pierre-Stéphane Michel no contrabaixo e Flávio Boltro no trompete, ano em que recebe igualmente o prémio de melhor solista no Concurso Internacional de Jazz de Avinhão, presidido por Daniel Humair.
Avanti! é o seu primeiro projecto a solo, algo que, intimamente, amadurecia há vários anos aguardando uma oportunidade de concretização. Valeu-lhe o Django de Ouro, para o melhor jovem talento e a Victoires du Jazz em 2002. E mereceu-lhe igualmente a consagração entre o público e a crítica, que enaltece a forma ousada como este jovem pianista aborda um repertório constituído por canções revolucionárias e patrióticas, de resistência e luta, de forma criativa, com um típico lirismo italiano, mas profundamente respeitador da melodia e do seu significado histórico.
Segundo o pianista foi o fascínio pelo imaginário colectivo e pela capacidade destas músicas se integrarem na memória de cada um de nós, que o atraiu para o projecto. Cada canção é uma história, um grito, uma emoção intensa que Mirabassi reescreve de modo maduro e refinado, por vezes mesmo surpreendente. O seu improviso incute sangue novo aos ideais protagonizados por estes temas porquanto deixa cantar a melodia, permite-lhe florescer e libertar o seu significado mais profundo, mais humano.
Uma obra maior e obrigatória, que consagrou definitivamente este excelente pianista italiano entre os músicos mais influentes da sua geração, no jazz europeu.
A ilustrar este belo trabalho deixo dois vídeos: o primeiro com o tema El Paso del Ebro, canção popular republicana da Guerra Civil de Espanha (também conhecida por Ay, Carmela!) evocativa da batalha do Ebro, a maior daquele confronto, que teve lugar no vale do Ebro, nas províncias de Tarragona e Saragoça, entre os meses de Julho e Setembro de 1938, acompanhado de fotos do exército republicano na Guerra Civil de Espanha; o segundo é um tema popular russo denominado Plaine, Oh Ma Plaine (POLYUSHKA POLYE), tema emblemático da revolução russa e popularizado pelo Coro do Exército Vermelho, o qual aparece acompanhado de fotos dos Gulags de Stalin, numa evocação das vítimas do totalitarismo estalinista.
Junto também dois videos de uma apresentação de Giovanni Mirabassi ao vivo, com os temas "El Pueblo Unido Jamas Sera Vencido" (da autoria de Sergio Ortega e que constitui um símbolo da luta chilena contra a ditadura de Pinochet) e "Le Chant Des Partisans" (da autoria de Anna Marly, hino não-oficial francês e símbolo da França livre, durante a ocupação alemã na 2ª guerra mundial), também incluídos no álbum Avanti!.







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