quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Jazz na Nova Temporada da Culturgest



Já foi apresentado o programa da nova temporada da Culturgest onde, como não poderia deixar de ser, as sugestões musicais aparecem em quantidade e qualidade, várias delas oriundas do universo do jazz.
Desde logo se destaca a continuidade do ciclo “Isto é Jazz?”, comissariado por Pedro Costa, da Trem Azul, onde se tem dado voz a alguns dos mais irreverentes experimentalistas músicos nacionais e estrangeiros. Desta feita estão agendados concertos no pequeno auditório da Culturgest para Ernesto Rodrigues, Christine Sehnaoui e Axel Dörner, para o grupo 4 Corners e ainda para Carlos Zíngaro. No grande auditório vão actuar Rodrigo Amado, acompanhado pelos norte-americanos Taylor Ho Bynum, John Hebert e Gerald Cleaver e ainda Steve Coleman e os seus 5 elements (Jonathan Finlayson, Tim Albright, Jen Shyu, Thomas Morgan e Tyshawn Sorey). Fora do jazz (ou talvez nem tanto…) destaca-se ainda uma grandiosa apresentação de José Mário Branco acompanhado pelos Gaiteiros de Lisboa, por um quarteto de cordas composto por Luís Morais e Jorge Vinhas nos violinos, Joana Moser na viola e João Pires no violoncelo e ainda por José Peixoto na guitarra, Carlos Bica no contrabaixo, Rui Júnior na percussão, Filipe Raposo no piano e Guto Lucena nos sopros. Há ainda lugar para o tango do jovem argentino Cristóbal Repetto, para o Festival Expresso Oriente, onde os sons do oriente se vão cruzar com a música erudita ocidental pela mão da Orchestrutopica e da pianista Elsa Silva e ainda para a ópera “Outro Fim” de António Pinho Vargas com Libreto de José Maria Vieira Mendes.
Relembro que, além de preços atractivos, a Culturgest proporciona 40% de desconto a quem adquirir entradas para quatro espectáculos (passe que permite igualmente o acesso gratuito às exposições patentes nas galerias da Caixa Geral de Depósitos). Um negócio da China para quem gosta de boa música!

Aqui fica o calendário dos espectáculos, sempre com início às 21.30h:


SEXTA 19 DE SETEMBRO DE 2008
Searching for Adam – Rodrigo Amado


SÁBADO 27 E TERÇA 30 DE SETEMBRO E QUINTA 2 DE OUTUBRO DE 2008
Festival Expresso Oriente


QUINTA 30 E SEXTA 31 DE OUTUBRO DE 2008
Mudar de Vida 2 – José Mário Branco


SEXTA 31 DE OUTUBRO DE 2008
Ernesto Rodrigues, Christine Sehnaoui, Axel Dörner


SEGUNDA 3 DE NOVEMBRO DE 2008
Cristóbal Repetto


SÁBADO 15 DE NOVEMBRO DE 2008
Steve Coleman & Five Elements


SEXTA 28 DE NOVEMBRO DE 2008
4 Corners


SEXTA 5 DE DEZEMBRO DE 2008
Carlos Zíngaro


SÁBADO 20 E DOMINGO 21 DE DEZEMBRO DE 2008
Outro fim
Ópera De António Pinho Vargas. Libreto de José Maria Vieira Mendes

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Canção Para Paredes



Bernardo Moreira Sexteto
Ao Paredes Confesso
Universal 2003

De Bernardo Moreira pode dizer-se que nasceu no jazz, filho primogénito do contrabaixista e actual presidente do Hot Club de Portugal, Engº Bernardo Moreira, um dos músicos que participou no aclamado filme de Fernando Lopes, Belarmino (1963) onde actua o conjunto do Hot Club de Portugal (composto por Jean-Pierre Gebler no sax-barítono, Justiniano Canelhas no piano, Bernardo Moreira no contrabaixo, Manuel Jorge Veloso na bateria e o convidado Milou Struvay no trompete) sob direcção musical de Manuel Jorge Veloso.
No entanto os seus estudos musicais apenas se iniciaram aos 16 anos de idade. Frequentou a Academia dos Amadores de Musica de Lisboa e estudou com Fernando Flores, Niels Oersted Pederson, Rufus Reid e Reggie Workman. É professor da Escola de Jazz Luís Villas-Boas, do Hot Club de Portugal, e pelas suas mãos passaram a maioria dos jovens músicos saídos daquela escola desde o final dos anos 80 do século passado. É pois, actualmente, um dos mais reconhecidos músicos de jazz nacionais, não só pelo seu trabalho docente, sempre ligado ao Hot Club de Portugal, mas também pela enorme experiência adquirida no contrabaixo, frutos de inúmeras colaborações com alguns dos melhores músicos nacionais e estrangeiros de que se destacam nomes como Eddie Henderson, Frank Lacy, Daniel Humair, Mário Laginha, Julian Arguelles, Benny Golson, Curtis Fuller, Norma Winstone, Art Farmer, Maria Pia de Vito, Freddie Hubbard, Maria João, Enrico Rava, Perico Sambeat, Phil Markowitz, Naná Sousa Dias, Ana Paula Oliveira, Nguyen Lê ou Mark Turner, entre muitos outros.

Fundou com os irmãos Pedro e João Moreira o Moreiras Quinteto, com quem correu a Europa e os Estados Unidos em concertos, foi solista convidado da Orquestra Metropolitana de Lisboa e faz parte da Big Band do Hot Club de Portugal. Assumiu a direcção musical de inúmeros projectos, como os mais recentes trabalhos de Paula Oliveira e Lena d’Água e faz parte de algumas da mais importantes formações de jazz nacionais como os trios de Mário Laginha, de Filipe Melo ou de Bruno Santos, o quinteto de Pedro Moreira ou os mais recentes projectos musicais de Cristina Branco (sob direcção musical de Ricardo Dias) e de Joana Machado (direcção de Afonso Pais), entre muitos outros.
Com tantos projectos em curso Bernardo Moreira tem tido pouco tempo para se dedicar à sua própria música, de que este disco de homenagem a Carlos Paredes, lançado em 2003 pela Universal, é uma excepção.
O sexteto de Bernardo Moreira é composto, além do contrabaixista, pelo seu irmão João Moreira no trompete e melódica, pelos guitarristas André Fernandes e Nuno Ferreira, pelo baterista André Sousa Machado e pelo percussionista Quiné, além da participação do seu outro irmão, Pedro Moreira, numa faixa (Dança dos Montanheses) e no saxofone soprano. Este disco é uma sentida homenagem ao grande guitarrista Carlos Paredes, editado pouco tempo antes da sua morte (que ocorreu em 2004) e é composto por quatro originais do músico conimbricense (Dança dos Montanheses, Verdes Anos, Sede e Morte e Variações Sobre Uma Dança Popular) com arranjos de Bernardo Moreira, a que se juntam três originais do contrabaixista imbuídos do génio musical de Paredes (Canção Para Carlos Paredes, Casa do Alto e Ao Paredes Confesso).
Longe de constituir um mero repositório do repertório do guitarrista que tocou com Charlie Haden, Ao Paredes Confesso é antes uma homenagem à criatividade do músico de Coimbra que reinventa os sons da balada coimbrã à luz da estética do jazz, através do talento de alguns dos melhores e mais experientes músicos nacionais do género.
A direcção musical de Bernardo Moreira é garantia mais do que suficiente para a idoneidade dessa homenagem, fruto do rigor e sobriedade com que sempre encara os projectos em que se envolve, mormente quando se trata de uma iniciativa pessoal como esta que, antes de ser gravada, já levava mais de três anos de apresentações públicas nos mais reputados festivais de jazz, aquém e além fronteiras. A música de Carlos Paredes funciona aqui sobretudo como inspiração à criatividade dos músicos, também eles sedentos da originalidade que sempre marcou a obra de Paredes e que atravessa gerações, fortemente imbuída na liberdade de improvisação e riqueza temática que devem caracterizar o jazz e que, para Bernardo Moreira, constituem a sua verdadeira essência.
Sem dúvida uma obra ímpar do jazz nacional que permanece porém, inexplicavelmente, pouco conhecida.
Aqui fica pois o meu reconhecimento e divulgação através de um belo tema, Sede e Morte, original de Carlos Paredes com arranjos de Bernardo Moreira, que vai acompanhada de fotografias de Oliver Dienst.

sábado, 23 de agosto de 2008

II Xôpana Jazz


Já é conhecido o programa do II Xôpana Jazz a realizar-se no Choupana Hills, no Funchal, nos dias 4, 5 e 6 de Setembro de 2008, pelas 21h30.

5ª feira, 4 de Setembro

Bruno Santos TRIoANGULAR
Bruno Santos (guitarra)
Bernardo Moreira (contrabaixo)
Bruno Pedroso (bateria)

David Binney Quintet featuring Mark Turner
David Binney (sax alto)
Mark Turner (sax tenor)
Jacob Sacks (piano)
Thomas Morgan (contrabaixo)
Dan Weiss (bateria)

6ª feira, 5 de Setembro

Julian Argüelles Quartet featuring André Fernandes
Julian Argüelles (saxofones)
André Fernandes (guitarra)
Bernardo Moreira (contrabaixo)
Alexandre Frazão (bateria)

Steve Swallow | Ohad Talmor | Adam Nussbaum
Ohad Talmor (sax tenor)
Steve Swallow (baixo eléctrico)
Adam Nussbaum (bateria)

Sábado, 6 de Setembro

Maria João & Mário Laginha featuring Julian Argüelles
Maria João (voz)
Julian Argüelles (saxofones)
Mário Laginha (piano)
Bernardo Moreira (contrabaixo)
Alexandre Frazão (bateria)

Enrico Rava Generations
Enrico Rava (trompete)
Mauro Negri (clarinete e saxofone)
Giovanni Guidi (piano)
Stefano Senni (contrabaixo)
Fabrizio Sferra (bateria)

Bilhetes à venda na FNAC e no local, Choupana Hills da Madeira
20€ por noite, com dois concertos
Pack 3 noites: 40€ até 8 dias antes
Desconto 50% alunos do Conservatório

Som da Surpresa 2008 - Ciclo Internacional de Jazz de Oeiras


Em Setembro o JAZZ volta a Oeiras.
Na 5ª edição do Ciclo Internacional de Jazz de Oeiras, os organizadores tentaram justapor a música de dois nomes norte-americanos, frequentadores habituais de Nova Iorque, particularmente cotados, com a música de dois nomes portugueses cujo percurso no jazz tem sido particularmente dignificante.
Estamos a referir-nos ao Trio FLY, que reúne dois acompanhantes do pianista Brad Mehldau, Larry Grenadier e Jeff Ballard e o inspirado saxofonista Mark Turner, e ao Quinteto do trompetista TOM HARRELL, cujo mais recente disco “Light On” (2007) tem recebido as mais elogiosas críticas quer nos EUA quer na Europa.
Do nosso lado, são a OJM - Orquestra de Jazz de Matosinhos num projecto dedicado à música do guitarrista americano Kurt Rosenwinkel, que se apresenta igualmente como solista, e o Quarteto do mais conhecedor e importante trompetista português, LAURENT FILIPE, com o seu mais recente projecto “The Song Band”.
São quatro grupos de músicos de elevada qualidade, que irão complementar-se no trabalho criativo, mas abordando a improvisação, característica fundamental do jazz, através de linguagens bem diversificadas.

Programa: (Aud. Municipal Ruy de Carvalho - Carnaxide)

19 de Setembro, 22.00h - Trio FLY (Larry Grenadier, Jeff Ballard e Mark Turner)
20 de Setembro, 22.00h - ORQ. JAZZ DE MATOSINHOS e Kurt Rosenwinkel
26 de Setembro, 22.00h - TOM HARRELL QUINTET
27 de Setembro, 22.00h - QUARTETO LAURENT FILIPE

Plateia: 8,00€; Balcão: 6,00€.

Agenda Jazz 25 a 31 de Agosto



2ª feira, 25 de Agosto

23.30h – Catacumbas (Lisboa) - Quarteto de Paulo Lopes

3ª feira, 26 de Agosto
23.30h – Catacumbas (Lisboa) - Messias & The Crossroads Blues Band

4ª feira, 27 de Agosto

23.30h – Catacumbas (Lisboa) - Trio de Carl Nevitt

5ª feira, 28 de Agosto

21.30h – Livraria Trama (Lisboa) _ La Chanson Noire
22.00h – Cafetaria Quadrante CCB (Lisboa) – André Matos Trio
23.00h – Hot Club (Lisboa) – Bruno Santos Trioangular
23.00h – Ondajazz (Lisboa - Bruno Pernadas Ensemble

6ª feira, 29 de Agosto

19.30h - Hotel Le Meridien Dona Filipa (Vale de Lobo) – Orquestra Jazz de Lagos
23.00h – Hot Club (Lisboa) – Bruno Santos Trioangular
23.00h – Ondajazz (Lisboa) – João Paulo Trio

Sábado, 30 de Agosto

22.00h - Convento dos Capuchos (Almada) – Mikado Lab
23.00h – Ondajazz (Lisboa) - Wynton´s Place Quintet
23.00h – Hot Club (Lisboa) – Bruno Santos Trioangular

Domingo, 31 de Agosto

17.30h – Parque Eduardo VII (Lisboa) – Carlos Bica Single

Festival jazz.pt em Setembro no Hot Club



Para comemorar o terceiro ano de edições da jazz.pt – revista bimestral de Jazz, única publicação periódica especializada em jazz editada no nosso país, o JACC – Jazz ao Centro Clube, associação cultural sem fins lucrativos responsável por esta publicação, lança o desafio à direcção do Hot Club de Portugal, para que acolha no seu mítico espaço na Praça da Alegria, em Lisboa, a primeira realização do festival jazz.pt.
Fiel à orientação editorial da revista (fortemente centrada na promoção e divulgação do Jazz em Portugal) o evento congrega proeminentes nomes da cena Jazz nacional e internacional, sendo palco para o lançamento de diversos registos discográficos.
Em ano de celebração do 60º aniversário do Hot Club de Portugal, os seus responsáveis acolheram com entusiasmo esta iniciativa, que se integra assim no programa de comemorações.
Agendado para os dois primeiros fins de semana de Setembro, este festival propõe dois concertos por noite (excepto no dia de encerramento, para o qual estão programadas três actuações), no bar e no jardim do Hot (seguramente uma agradável surpresa para os assíduos frequentadores daquele Clube).
Olhando a números, para os dois palcos do festival estão programados 13 concertos, com quatro novos discos em lançamento, assim como uma programação paralela constituída por exposições fotografia e design gráfico.

Aqui fica o programa:

QUI 4 Setembro 2008

23:00 (jardim)
Talmor/Swallow/Nussbaum EUA/Suíça
Ohad Talmor - saxofone tenor
Steve Swallow - baixo eléctrico
Adam Nussbaum - bateria
00:30 (bar)
Red Trio Portugal
Rodrigo Pinheiro - piano
Hernani Faustino - contrabaixo
Gabriel Ferrandini - bateria

SEX 5 Setembro 2008

23:00 (jardim)
Fundbureau Noruega/Portugal
Stephan Meidell - guitarra
Hugo Antunes - contrabaixo
Luís Candeias - bateria
00:30 (bar)
David Binney Quintet featuring Mark Turner EUA
David Binney - saxofone alto
Mark Turner - saxofone tenor
Jacob Sacks - piano
Thomas Morgan - contrabaixo
Dan Weiss - bateria

SÁB 6 Setembro 2008

23:00 (jardim)
After Fall EUA/Portugal
Luís Lopes - guitarra
Joe Giardullo - saxofone soprano
Sei Miguel - trompete
Ken Filiano - contrabaixo
Harvey Sorgen - bateria
00:30 (bar)
David Binney Quintet featuring Mark Turner EUA

QUI 11 Setembro 2008

23:00 (jardim)
André Matos “Rosa Shock” Argentina/Brasil/Portugal
André Matos - guitarra
Sara Serpa - voz
Demian Cabaud - contrabaixo
Alexandre Frazão - bateria
(Lançamento de disco pela Tone Of A Pitch)
00:30 (bar)
Afonso Pais Trio “Subsequências” Brasil/Portugal
Afonso Pais - guitarra
Nelson Cascais - contrabaixo
Alexandre Frazão - bateria
(Lançamento de disco pela ENJA Records)

SEX 12 Setembro 2008

23:00 (jardim)
Jason Stein’s Locksmith Isidore EUA
Jason Stein - clarinete baixo
Jason Roebke – contrabaixo
Mike Pride - percussão
00:30 (bar)
Happenning Portugal
Carlos Bica - contrabaixo
João Paulo - piano
Júlio Resende - piano
João Lobo - bateria
Luís Cunha - trombone

SÁB 13 Setembro 2008

22:30 (jardim)
José Peixoto “El Fad” Portugal
José Peixoto - guitarra
Carlos Zíngaro - violino
Miguel Leiria Pereira - contrabaixo
José Salgueiro - percussão
(Pré-lançamento de disco)
23:30 (jardim)
Quinteto de Pedro Moreira Portugal
Pedro Moreira - saxofones tenor e soprano
Susana Silva - trompete
André Fernandes - guitarra
Nelson Cascais - contrabaixo
André Sousa Machado – bateria
00:30 (bar)
Tetterapadequ Itália/Portugal
João Lobo - bateria
Gonçalo Almeida - contrabaixo
Daniele Martini - saxofone
Giovanni Di Domenico - piano

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Um Brisa Mediterrânica



Alboran Trio
Near Gale
ACT 2008

Tem-se assistido nos últimos anos a um ressurgimento e aprofundamento do conceito do trio clássico de piano jazz, particularmente no jazz europeu. Muito por culpa do sucesso alcançado por trios nórdicos, como o Esbjorn Svensson Trio ou o Tord Gustavsen Trio, as respectivas editoras (no caso as alemãs ECM e ACT) apostaram em novas formações, lançando músicos jovens de inquestionável talento, como o polaco Marcin Wasilewski ou o grego Vassilis Tsabropoulos, mas também recuperando nomes experientes até então dedicados a diferentes projectos musicais, como o sueco Bobo Stenson ou o britânico John Taylor.
O conceito alastrou a diferentes editoras e ambientes jazzísticos e as presentes páginas têm sido testemunho de muitos e meritórios projectos em trio de piano.
Ao contrário da nova geração de pianistas norte-americanos, que buscaram renovação no aprofundamento da raízes bopistas do seu jazz ou então incorporando elementos oriundos da pop, como sucedeu com Brad Melhdau ou Ethan Iverson (dos Bad Plus), na Europa essa renovação de valores envolveu geralmente uma aproximação aos universos eruditos clássico e contemporâneo, mas também à World Music, seja ela o folclore europeu ou de outras proveniências.
Mesmo em Portugal foi possível assistir ao ressurgimento do trio de piano, através de músicos consagrados como Mário Laginha ou Bernardo Sassetti, mas também pelo lançamento de novos valores como Filipe Melo e Júlio Resende.
Venho agora falar-vos mais um trio de piano europeu, desta feita italiano mas editado pela alemã ACT, o Alboran Trio. É composto por Paolo Paliaga no piano, Dino Contenti no contrabaixo e Gigi Biolcati na bateria. O seu estilo segue de perto projectos semelhantes editados recentemente, como os vários supracitados entre outros, no entanto sente-se o lirismo latino e a melancolia do Mediterrâneo na música de Paolo Paliaga (o compositor do trio, embora os arranjos sejam elaborados pelos três músicos, que assim se afirmam verdadeiramente como um projecto colectivo, e não apenas como o trio de Paolo Paliaga).
Auto didacta durante muito tempo Paliaga encontrou finalmente o caminho do jazz através de workshops com Nando De Luca, Ettore Righello, Enrico Pieranunzi no seminário do Siena Jazz e sobretudo em aulas particulares com Arrigo Cappelletti.
Paliaga licenciou-se em Ciências Políticas e partiu para Paris para um doutoramento em Sociologia. Foi aqui que editou o seu primeiro disco, Faena (Buda, 1993) com os músicos franceses Marco Quesada, Olivier Besenval, Philippe Leiba, Khalid Kouhen e Ravy Magnifique. Depois de uma primeira fase bopista, sob influência de Stefano Colnaghi, partiu em busca de um novo som, um som à ECM (nas palavras do próprio músico), que encontrou na companhia dos músicos Stefano Dall’Ora, Gianni Rossi, Ettore Lupini e Simonetta Artuso. Surge então o seu primeiro disco como líder, Giro-Vago (Caligula, 1996), com Ares Tavolazzi, Giulio Visibelli e Nicola Stranieri. Participa no projecto Splasc(h) com quem grava dois discos, Azul (1999) com o Horizon Quartet composto por Massimo Vescovi, Nicola Stranieri, Stefano Dall'Ora e Carlos Buschini e no ano seguinte Meriggi e Ombre, desta feita a solo. Projectos radiofónicos e de acompanhamento musical de cinema mudo ajudam-no ao apuramento do seu estilo, que se revela progressivamente mais impressionista.

O Alboran Trio nasce em 2004 quando encontra o contrabaixista Dino Contenti e o baterista e percussionista Gigi Biolcati e o grupo assume desde logo um entendimento de tal forma apurado que pareceria que tocavam juntos há anos. Segue-se o contrato com a ACT e o primeiro disco do trio Meltemi, editado em 2006. Near Gale é o seu segundo trabalho que viu os escaparates alemães já em 2008.
Trata-se de uma mistura ideal de formas oriundas do jazz tradicional com elementos retirados da world music, numa fusão disciplinada, bem definida, que combina o simples com o complexo, sem nunca perder a liberdade criativa, na composição (o repertório é integralmente composto por originais) e na interpretação que recorre, sempre que possível, à improvisação.
Uma fresca brisa mediterrânica… nas palavras da editora ACT.
Apesar de não produzir um som profundamente original, este Alboran Trio distingue-se dos muitos outros projectos similares precisamente pelo lirismo latino que consegue introduzir na sua música. Por vezes pulsante e quente, outras melancólico e introspectivo, mas nunca frio ou cerebral, como por vezes sucede com algum projectos escandinavos. Um jazz de câmara bem elaborado e interpretado, simples e apelativo como convém.
Nota bem positiva, da parte que me toca, para este Alboran Trio. Um grupo a seguir com atenção.
Deixo-vos com o tema Rrock in the dark, original de Paolo Paliaga incluído neste trabalho, Near Gale, com fotos de Michael Shpuntov extraídas do seu trabalho denominado "Toronto Painted Black & White".

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Liberdade Criativa



Júlio Resende
Da Alma
Cleanfeed, 2007

Júlio Resende é, indiscutivelmente, um dos mais promissores jovens pianistas portugueses.
Nascido em Faro começa os seus estudos de piano aos quatro anos de idade. Estuda no Conservatório Maria Campina, com a professora de piano Oxanna Anikeeva e o professor de formação musical, Paulo Cunha. Mas cedo descobre que a sua vocação é a improvisação, pelo que ruma ao jazz pela mão do contrabaixista e pedagogo Zé Eduardo. Em 2000 muda-se para Lisboa e estuda com Rodrigo Gonçalves, Pedro Moreira e Mário Laginha na escola do Hot Club de Portugal. Fez parte da primeira Big Band Nacional da Juventude e do Ensemble do Hot Clube. Participou em vários workshops internacionais, nos quais trabalhou com professores de prestigiadas Universidades de Jazz dos EUA, como a New School for Jazz and Contemporary Music e a Berklee College of Music: Aaron Goldberg, Gary Versage, Greg Tardy, Matt Penman, Frank Tiberi, Mark Ferber, Jonathan Kreisberg, Omer Avital. Trabalhou ainda com Paulo Gomes e Pedro Guedes. Em 2004 desloca-se a Paris por uma temporada à Université de S.Denis, estudando com Yves Torchinsky, Phillipe Michel, Fréderic Saffar e Lillian Dericq (professor da Bill Evans Academy). Em 2006, licencia-se em Filosofia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e em 2007 lecciona o curso de Piano-Jazz na Escola JBJazz, em Lisboa.
Antes ainda de formar o seu quarteto, tocou com reputados músicos nacionais como Carlos Bica, João Paulo Esteves da Silva, Pedro Moreira, Bernardo Moreira, Alexandre Frazão, Nuno Ferreira, André Fernandes, Afonso Pais, Matt Lester, Hugo Alves, Bruno Pedroso, Alexandre Frazão e Maria Viana, entre outros.


Só em 2007 edita o seu primeiro disco como líder, precisamente este Da Alma, pela Cleanfeed, gravado no Forum Cultural do Seixal por Luís Delgado a 3 e 4 de Julho de 2007. Conta, para além dele no piano, com João Custódio no contrabaixo, Alexandra Grimal e Zé Pedro Coelho no saxofone tenor, João Lobo e João Rijo na bateria.
Apesar de se tratar da sua primeira obra discográfica Júlio Resende assina todos os temas incluídos no disco à excepção de Wise Up, um original da norte-americana Aimee Mann, fruto do seu incontornável talento como compositor e também de um intenso e prolongado trabalho no estudo da composição, auxiliado por Pedro Moreira.
Mas basta ouvir o disco de Júlio Resende para perceber que a sua opção foi tudo menos arrojada. Ao invés de uma primeira obra, cheia de indefinições, de naturais receios e suportada na maior experiência dos músicos convidados, surge um trabalho maduro, claramente liderado pelo jovem pianista algarvio que vai buscar, para o acompanhar, outros jovens talentos do jazz nacional. O seu conterrâneo João Rijo na bateria, que se revela um dos mais promissores bateristas nacionais da sua geração, seleccionado para a European Movement Orchestra; o também jovem, mas já consagrado, baterista João Lobo, que ainda recentemente ouvimos acompanhar Enrico Rava e Gianluca Petrella no CCB, integrado no quinteto do trompetista italiano; o experiente saxofonista nortenho José Pedro Coelho, membro da Orquestra Orff do Porto, da Orquestra Jazz de Matosinhos, do Sexteto de Mário Barreiros e dos quintetos de Jacinta e Mário Santos, além de liderar o seu próprio quarteto; o brilhante contrabaixista João Custódio, um dos mais arrojados intérpretes do contrabaixo da sua geração, que apesar de quase auto-didacta (começou tardiamente a sua educação musical no contrabaixo, apenas aos 19 anos, mas passou pelas mãos de Zé Eduardo, Manuel Rego, Bernardo Moreira e Nelson Cascais) se converteu, em poucos anos, num dos mais requisitados contrabaixistas nacionais, colaborando com músicos como Nuno Ferreira, Rui Caetano, Rodrigo Gonçalves, Afonso Pais, Filipe Melo, Bruno Santos, Paulo Bandeira, Maria Viana, Matt Lester, Miguel Martins, André Matos, Alexandre Frazão, Mário Delgado, Vasco Agostinho, André Fernandes, Jorge Reis e fazendo parte do quinteto de Jacinta, além deste quarteto de Júlio Resende e ainda dos grupos Irmãos Catita e Corações de Atum, na área do pop; e ainda a saxofonista parisiense Alexandra Grimal.
Este projecto Da Alma, como já tive ocasião de referir nestas páginas, é construído pela apropriação jazzística de um património musical nacional pós-revolucionário, num reconhecimento simbólico da riqueza cultural que a liberdade criativa e de expressão trouxe à geração de 70, de que fazem parte os músicos envolvidos. O tema mais sintomático disso mesmo aparece logo na abertura do disco e denomina-se precisamente “Filhos da Revolução”. Mas ao contrário de outros projectos com idênticos propósitos, Júlio Resende não se limitou a pegar em meia dúzia de originais dos compositores de Abril e adaptá-los às suas enormes capacidades improvisadoras. Este talentoso pianista pegou antes na essência musical e criativa desses anos e desenvolveu-a pela sua própria voz e à luz de um percurso pós-revolucionário de que ele (e os restantes músicos envolvidos) já foi protagonista. Assim, longe do saudosismo de alguns trabalhos, Da Alma surge com uma frescura e criatividade ímpares no actual panorama musical português. A evocação de Abril exprime reconhecimento mas não seguidismo. É um ponto de partida e não de chegada.
E será seguramente o ponto de partida para uma carreira que se adivinha brilhante para este grande músico nacional, que se afirma desde logo como um nome maior entre os excelentes pianistas de jazz portugueses como Mário Laginha, João Paulo ou Bernardo Sassetti.
Entretanto tenho seguido atentamente o trabalho de Júlio Resende que, nos últimos meses, passou por importantes colaborações com grandes músicos internacionais de jazz como o espanhol Perico Sambeat ou o norte-americano John Hebert (sempre integrados no seu próprio quarteto, o que diz bem da capacidade de liderança de Júlio Resende). Espera-se pois que o segundo disco não tarde, tal como a internacionalização deste grande pianista de jazz. Talento não lhe falta, nem tão pouco o reconhecimento, que vai surgindo gradual e qualitativamente.
Deixo-vos com um tema do disco Da Alma, curiosamente o único que não é da autoria de Júlio Resende… No entanto acreditem que tal é apenas expressão da minha paixão pelo mesmo e nunca de desconfiança face às enormes qualidades criativas do pianista. Chama-se Wise Up e é da autoria da cantora norte-americana Aimee Mann (que vai actuar em Lisboa, no Coliseu dos Recreios a 18 de Outubro) e está acompanhado de fotografias da autoria de Gonzalo Garcia de Viedma, extraídas do seu trabalho denominado “Quidam” (aquele que passa).

Jazz Renascentista



Knut Rössler & Johannes Vogt
Between The Times
With Miroslav Vitous
ACT, 2007

Quando a música antiga encontra o jazz…
É este o prelúdio deste magnífico trabalho que junta os alemães Johannes Vogt no alaúde e Knut Rössler, no saxofone e flauta, acompanhados ainda pelo checo Miroslav Vitous no contrabaixo e pelo percussionista, também alemão, Mani Neumeier.
Oriundos de universos musicais distintos, Vogt dedicado ao estudo da música antiga e Rössler saxofonista de jazz, encontraram-se em Heidelberg, quando ambos foram convidados a colaborarem numa apresentação de uma nova exposição de arte. O resultado superou amplamente as expectativas de ambos e conduziu-os a uma extensa colaboração posterior.
Vogt e Rössler fundaram este ensemble “Between The Times” com vista a explorar antigas melodias da tradição musical europeia, em especial dos particularmente criativos períodos de transição. É já o quarto trabalho que editam deste projecto, embora seja o primeiro com a ACT, e neste volume dedicaram-se em particular a uma viagem musical no tempo à Paris do século XVII. Obras de compositores como Ennemond Gaultier, Pierre Dubut, Denis Gaultier e Jacques Gallot, entre outras anónimas, serviram de base a um apurado trabalho de adaptação e justaposição, melódica e harmónica, para o alaúde, a que juntaram um amplo trabalho de composição e arranjo, introduzindo elementos estranhos a este universo barroco, como o saxofone de Rössler logo anuncia. A improvisação surge assim naturalmente, numa aproximação ao universo do jazz que o fabuloso contrabaixo de Vitous complementa na perfeição e ocasionalmente também a percussão de Neumeier.


O resultado é simplesmente fabuloso! Um universo musical simultaneamente novo e antigo, com belas melodias fortemente informadas dos sons barrocos e mesmo renascentistas, introduzidas sobretudo pelo alaúde, a descobrirem novas profundidades nos arranjos para o saxofone e contrabaixo, de uma forma misteriosamente bela.
O cruzamento do jazz com a música clássica e contemporânea é algo, actualmente, usual, particularmente na escola nórdica, sem esquecer as incursões dos franceses Claude Bolling e Jacques Loussier ou do italiano Gianluigi Trovesi. No entanto esta aproximação revela-se profundamente original porquanto aborda uma época musical específica e pouco usual no jazz. E fá-lo recorrendo a um instrumento antigo e, também ele, praticamente alheio ao jazz: o alaúde.
Temos assim um repertório constituído por temas barrocos tocados num alaúde, que os remete para ambientes musicais ainda mais antigos, mas também por um saxofone que os puxa para um jazz lírico contemporâneo, no que é maravilhosamente complementado pelo extraordinário trabalho de Vitous no contrabaixo. A esta total subversão conceptual junta-se ainda, nalguns temas, a percussão de Neumeier a realçar o insólito deste ensemble…
Não é um disco para agradar a puristas, sejam eles oriundos da música antiga, barroca ou do jazz. Mas a mim, confesso que me encantou! Belo como poucos, soberbamente interpretado e arranjado, constitui uma provocação extraordinariamente estimulante ao ouvinte capaz de se abstrair de conceptualismos musicais e encantar-se simplesmente pela beleza daquilo que lhe é oferecido.
Seja isto jazz, música clássica ou aquilo que for!
É simplesmente maravilhoso. Um verdadeira obra-prima!
Não resisto a deixar-vos dois vídeos deste magnífico trabalho. O primeiro denomina-se Kuna e é acompanhado de belas fotos de Richard Calmes, integrantes do seu trabalho denominado Square Dancers. O segundo chama-se Canaries e vai acompanhado de belas fotos das costas islandesas da autoria de Örvar Atli (The Icelandic Coastline).



domingo, 17 de agosto de 2008

Agenda Jazz 18 a 24 de Agosto



2ª feira, 18 de Agosto

19.30h – Hotel D. Filipa (Loulé) - Orquestra de Jazz de Lagos
23.30h – Catacumbas (Lisboa) - Quarteto de Paulo Lopes

3ª feira, 19 de Agosto

22.30h – Ondajazz (Lisboa) - Hipster 6tet
23.30h – Catacumbas (Lisboa) - Messias & The Crossroads Blues Band

4ª feira, 20 de Agosto

23.30h – Catacumbas (Lisboa) - Catman & Friends Play The Blues

5ª feira, 21 de Agosto

22.00h – Cafaria Quadrante (CCB-Lisboa) - Miguel Martins Kaleidoscópio
23.00h – Ondajazz (Lisboa) – Pedro Moreno & Raspa do Tacho
23.30h – Catacumbas (Lisboa) - A Jazz Ensemble

6ª feira, 22 de Agosto

21.30h - Tomar - Aldeia de Cem Soldos - Kumpania Algazarra
22.00h – Fábrica da Pólvora (Barcarena-Oeiras) – Juan Pinilla
23.00h – Ondajazz (Lisboa) - Quinteto de Afonso Pais

Sábado, 23 de Agosto

17.30h - Tomar - Aldeia de Cem Soldos - Tora Tora Big Band & Rão Kyao
22.00h – Convento dos Capuchos (Almada) - A4 Band Jazz Quartet
22.00h - Vila Nova da Cerveira - Auditório Municipal - Wim Mertens Duo
22.00h – Jardim Palácio Cristal (Porto) - Jacinta «Convexo»
23.00h – Ondajazz (Lisboa) – Jandira Silva
23.00h - Villa Praia - Castanheira de Pêra - Lydie Carell & Júlio Resende

Domingo, 24 de Agosto

17.00h – Parque Eduardo VII (Lisboa) - António Bruheim Trio