Desbundixie - Up2Nine 9 de Janeiro, 21.30h Teatro Miguel Franco (Leiria)
O grupo da cidade do Lis Desbundixie vai apresentar ao vivo o seu novo disco, Up2Nine, em casa, no Teatro Miguel Franco,no próximo dia 9 de Janeiro, pelas 21.30h. Uma apresentação que contará com dois convidados especiais: a cantora Maria João e o pianista Filipe Melo, que igualmente participaram na gravação do disco, da responsabilidade de André Fernandes. Um espectáculo a não perder!
Aqui fica a programação da Culturgest para o primeiro trimestre de 2010. Para irem anotando nas agendas...
9 de Janeiro de 2010 18.00h - Grande Auditório Joanna MacGregor Pianista, compositora, maestrina, directora do Festival de Bath, Joanna MacGregor é uma das mais inovadoras artistas contemporâneas. Ao longo da sua carreira tem persistentemente criado pontes entre vários géneros musicais que desafiam as categorias tradicionais. Apresentou-se em mais de 60 países, em recitais ou acompanhada pelas melhores orquestras. Trabalhou com maestros como Pierre Boulez, Simon Rattle, Colin Davis ou Michael Tilson Thomas. Estreou obras emblemáticas de compositores que vão de Birtwistle a Django Bates, de John Adams a James MacMillan. Tocou com músicos de jazz, gravou com Talvin Singh, tocador de tabla e artista pop, viajou pela China com a companhia de dança contemporânea Jin Xing, de Xangai, para quem escreveu uma partitura combinando a música tradicional chinesa com música electrónica e filme. Em 2007 abriu o Festival de Jazz de Londres com Dhaffer Youssef, cantor árabe e virtuoso do oud e a Britten Sinfonia, num concerto que The Times classificou como “o futuro da música”. Gravou mais de 30 álbuns a solo, com obras de Bach, Scarlatti, Ravel ou Debussy, mas também de compositores contemporâneos e de músicos de jazz. Em 2003 esteve no Festival Internacional de Música de Mafra. No início de 2010, os CDs Live in Buenos Aires e Goldberg Variations de Bach, gravados no Mozarteum em Salzburg, serão editados pela Warner Classical and Jazz e distribuídos a pela etiqueta SoundCircus, que pertence à pianista. O programa do recital deste fim de tarde é particularmente estimulante. Na primeira parte interpreta Prelúdios e Fugas de J.S. Bach retirados do 1º volume de O Cravo Bem Temperado, intercalados com os Prelúdios e Fugas que Chostakovitch escreveu em homenagem ao genial compositor alemão. A segunda parte é preenchida por bem conhecidos ritmos de dança do Brasil e da Argentina
Joanna MacGregor - Bach - Prelude & Fugue No. 19 in A Major BWV 864
10 de Janeiro de 2010 21h30 · Grande Auditório Stefano Bollani Trio Stone in the Water
Constituído há cerca de seis anos, este “trio dinamarquês” é uma das muitas formações através das quais, como líder ou sideman qualificado, o pianista italiano Stefano Bollani se tem afirmado no panorama actual do jazz internacional, gravando em 2009, pela primeira vez para a ECM, o álbum Stone in the Water, considerado pela crítica especializada um dos mais importantes do ano. Nascido em Milão em 1972, Bollani começou desde muito novo a tocar piano como autodidacta mas aos 11 anos de idade matriculou-se no Conservatório de Florença. Desenvolvendo ali a sua formação musical académica e tendo-se graduado em 1993, o pianista interessou-se desde logo pelo jazz mas também pela música pop e pelas variedades, acompanhando vários cantores nesta área. E foi o convite de Enrico Rava para fazer parte do seu grupo durante uma digressão a França que colocou o pianista na ribalta do jazz, iniciando então uma carreira imparável neste domínio, que já o levou a tocar em vários contextos e liderando os seus próprios grupos. Possuidor de uma técnica pianística apurada, capaz dos maiores arrebatamentos líricos e de um fraseado virtuosístico impressionante, Bollani já participou em numerosos festivais em Itália e no estrangeiro, sendo habitualmente músico convidado de personalidades como Lee Konitz, Pat Metheny, Paolo Fresu, Phil Woods ou Gato Barbieri. Neste concerto da Culturgest, será de esperar que o repertório de Stone in the Water esteja em primeiro plano, na diversidade das suas atmosferas, tão bem construídas pela criativa interacção de três músicos de excepção.
Stefano Bollani - Maple Leaf Rag
15 de Janeiro de 2010 22h00 · Culturgest Porto Dave Burrell
Dave Burrell é dono de um vocabulário que percorre a história do jazz desde as suas raízes, o gospel, o blues, até às suas manifestações mais vanguardistas. É habitual vê-lo articular com a maior fluidez a aparente simplicidade de um boogie ou do ragtime com um trabalho rítmico, abstracto, metafísico, tributário tanto de Jelly Roll Morton como de Coltrane ou Leonard Bernstein. Desde os seus tempos de estudante na escola de música de Berklee, atravessando a revolução do free e do jazz de vanguarda de Nova Iorque dos anos de 1960, até ao seu cruzamento com os músicos de Chicago do AACM (Association for The Advancement of Creative Musicians, criada em 1965 em torno de um grupo de músicos liderado pelo pianista Muhal Richard Abrams) em Paris pós Maio de 1968, até ao tempo presente, Burrell tem-se mantido, com altos e baixos de notoriedade, como um dos grandes pianistas da história do jazz. Depois de uma fase de cerca de dez anos de relativo afastamento público, volta aos palcos estimulado pelo saxofonista David Murray no final da década de 1980. Ao longo da sua extensa carreira, Burrell participou em mais de 115 gravações, 30 das quais como líder. Neste concerto apresenta, além de algumas das suas composições mais importantes, um repertório de vários standards de Gershwin, Monk ou Ellington, que vem revisitando e desconstruindo há décadas. Um solo de piano que funciona como uma preciosa oportunidade para ver a história da música de um país reinventar-se perante nós pelas mãos de quem tem ajudado a defini-la.
Dave Burrell Trio - Hangin'
25 de Janeiro de 2010 21h30 · Pequeno Auditório Joe Morris e Barre Phillips
Guitarra Joe Morris Contrabaixo Barre Phillips
Depois de abrir um novo capítulo na sua brilhante carreira, gravando o emblemático CD quádruplo com Anthony Braxton, Four Improvisations (Duo) 2007 (Clean Feed, 2008), Joe Morris prossegue os seus encontros com os mais originais criadores da actualidade, agora com o contrabaixista Barre Phillips, um dos mais importantes nomes da música improvisada das últimas décadas. Em conjunto gravaram Elm City Duets 2006, também para a Clean Feed (2008). Nessa gravação, a música foi criada espontaneamente, num clima de respeito mútuo, por estes excepcionais improvisadores. Joe Morris é uma das mais relevantes figuras da actual cena avant-garde mundial, Barre Phillips é um músico de culto e figura histórica que tocou com os maiores, de Jimmy Giuffre a Eric Dolphy e Archie Shepp. A admiração de Joe Morris por Barre Phillips transparece muita claramente no texto que escreveu para o álbum Elm City Duets. Mas essa admiração não o coloca numa posição de reverência ou de passividde quando toca com Phillips. O que se ouve no disco, e certamente acontecerá neste concerto, é um diálogo vivo entre dois iguais com contribuições incisivas de cada um deles. Joe Morris nasceu em 1955, começando a tocar guitarra aos 15 anos. Participou em mais de 70 gravações, muitas das quais têm sido nomeadas como Disco do Ano por diversas publicações como Village Voice, Chicago Tribune, Wire, Coda, e Jazziz. De entre os muitos músicos com quem trabalhou podem citar-se Anthony Braxton, William Parker, Matthew Shipp. Barre Phillips, Dewey Redman, Andrew Cyrille, Kidd Jordan, Fred Hopkins ou Ken Vandermark. Barre Phillips é conhecido como uma lenda do contrabaixo contemporâneo. Foi o primeiro contrabaixista a gravar um disco a solo neste instrumento (Journal Violone, Opus One, 1968) e com Dave Holland gravou o primeiro disco em duo de contrabaixos (Music For Two Basses, ECM 1971). É um dos mais importantes nomes do free jazz e da música improvisada dos últimos 40 anos. Participou em mais de 150 gravações, 40 das quais enquanto líder.
Joe Morris Trio
30 de Janeiro de 2010 21h30 · Grande Auditório Corey Harris & The Rasta Blues Experience
Teclados Christopher Whitley Voz, guitarra Corey Harris Bateria Kenneth Joseph Baixo Donovan Marks Saxofone Gordon Jones
Um disco ouvido aos 12 anos com a mãe traçou a vida de Corey Harris. Na casa de Denver onde nasceu a 21 Fevereiro de 1969, uma lenda do blues enchia o ar de sons: Lightnin’ Hopkins. Iniciou assim um percurso que o levou desde os blues mais tradicionais até às mais contemporâneas expressões do género. Formado em Antropologia, Corey Harris esteve nos Camarões, África, para uma pós-graduação em linguística e aí estudou as poliritmias complexas da música local. De regresso aos EUA começou a tocar profissionalmente em clubes de Nova Orleães. Em 1995 gravou o primeiro disco para a Alligator. Between Midnight and Day é um álbum a solo, em torno do seu virtuosismo nas inúmeras variantes dos Delta Blues, o suficiente para ser apontado como um valor importante da nova geração de músicos de blues de invulgar versatilidade e cultura. Em 1997 grava Fish Ain’t Bitin, onde mistura nas suas composições uma secção de sopros ao estilo típico de Nova Orleães. No ano seguinte colabora com a dupla Billy Bragg/Wilco no projecto Mermald Avenue, em torno da música de Woody Guthrie. Em 1999 grava Greens from the Garden com o pianista Henry Butler, que muitos críticos consideram ser o seu trabalho mais importante e onde os blues se misturam com o funk, R&B e até com reggae e hip-hop. No ano seguinte volta a gravar com Butler o soberbo álbum de blues do Delta intitulado Vu-Du Menz. Na nova editora, a Rounder, regista em 2002 Downhone Sophisticate, de sonoridade eléctrica e onde explora influências africanas e latinas; seguem-se o maravilhoso Mississippi to Mali em 2003 e Daily Bread em 2005. Uma viagem à Jamaica acaba por ser decisiva para o som dos dois álbuns que se seguem, ambos para a Telarc: Zion Crossroads em 2007 e Blu, Black, já em 2009. Corey Harris é o protagonista de um dos episódios da série televisiva Blues, produzida por Martin Scorsese.
Keb Mo & Corey Harris - Sweet Home Chicago
2 de Fevereiro de 2010 21h30 · Pequeno Auditório Josh White Jr.
Guitarra Josh White Jr. Contrabaixo João Custódio
Josh White Jr. é o herdeiro da arte do seu pai, Josh White, o principal responsável nos anos 30/40 do século passado pela divulgação da folk negra e dos blues à América branca e ao resto do mundo. Nascido em 1940, depois de uma longa carreira apresenta-se como cantor, compositor, actor e guitarrista, da folk/blues, da pop, do jazz, para adultos e para crianças. É ainda professor e activista social. A verdade é que, aos quatro anos, o pai pô-lo, em cima de um banco, a cantar no célebre Café Society de Nova Iorque, o primeiro clube nocturno sem segregação entre negros e brancos. Em 1949 chega a um musical da Broadway, sempre com o pai, uma parceria que durou 17 anos. A solo grava pela primeira vez em 1956 See Saw, para a Decca. Ente 1949 e 1960 aparece em cinco peças da Broadway e numa “off-Broadway”. Ganha um Tony Award logo em 1949, como o melhor actor infantil. Em 1961 já tinha actuado em mais de 50 dramas de TV mas decide focar-se na música, pois as oportunidades de emprego para actores negros adultos eram escassas. Em 1984 o disco Jazz, Ballads & Blues, de homenagem ao pai, é nomeado para um Grammy. Faz o seu primeiro grande espectáculo na TV como músico num especial em 1979, na PBS. Em 1983 actua num musical biográfico do seu pai, Josh: The Man & His Music. Todos os anos faz questão de repor o espectáculo, que esgota sempre. Actua em escolas a divulgar a música do seu pai e também de outros pioneiros de Leadbelly a Woody Guthrie. Após o 11 de Setembro de 2001, Josh gravou duas canções de seu pai, ícones da canção anti-racista norte-americana, The House I Live In e Free and Equal Blues, para uma compilação da Gateway Records , na sequência da qual foi o primeiro artista convidado a dar um espectáculo no Ground Zero. Em Lisboa comentará filmes sobre seu pai, dará um espectáculo a ele dedicado e orientará uma master class de guitarra.
Josh White Jr. - Miss Otis Regrets
4 de Fevereiro de 2010 21h30 · Pequeno Auditório Elijah Wald Robert Johnson: Roots and Branches
Este é o homem que explica Como os Beatles destruíram o Rock’n’Roll, livro lançado em Maio de 2009 nos Estados Unidos. A tese do historiador e músico é que, a partir dos Beatles, a gravação passa a ser a verdadeira referência da música popular – e não o espectáculo ao vivo – e daí nasce outra realidade, onde o rock e seus sucedâneos passam a ser dominados por músicos brancos. Em contrapartida o soul, o disco e o hip hop ficam dominados por artistas negros. Elijah Wald está a chegar à dezena de livros publicados e soma centenas de artigos em jornais e revistas dos Estados Unidos e Inglaterra, (foi durante dez anos o cronista da área do Boston Globe, agora escreve no Los Angeles Times). Também biógrafo de Josh White, Elijah dedicou uma obra de referência à biografia do lendário músico de blues Jimmy Johnson, tema que o trará a Lisboa para uma palestra e um espectáculo. Porque, para além de escritor e investigador, Elijah é também músico. Toca desde os sete anos e foi como músico de guitarra às costas que nos anos 1970 e 1980 andou a ganhar a vida na Europa, na Ásia, em África e na América Central. A experiência passou por uma banda de blues em Sevilha até dar espectáculos com um grupo rock num hotel do Sri Lanka! Nascido em 1959, Elijah Wald é filho de um Prémio Nobel da Medicina (George Wald) e da bióloga Ruth Hubbard com quem escreveu um livro – Exploding the Gene Myth. Gravou dois discos: Elijah Walker: Songster, Fingerpicker, Shirtmaker, que só há em LP, e o CD Street Corner Cowboys.
Elijah Wald - Casey Jones
5 de Fevereiro de 2010 21h30 · Pequeno Auditório Henry Butler
A devastação de Nova Orleães causada pelo furacão Katrina, em 2005, obrigou Henry Butler a deixar de viver na cidade da Louisiana onde nasceu a 21 de Setembro de 1949. O glaucoma que o atingiu à nascença não o impediu de ser músico aclamado. Nomeado oito vezes para o prémio de melhor pianista do W.C. Handy Award (desde 2006 designado por Blues Music Award), o mais prestigiado troféu da área do blues, foi designado pelo “mítico” Dr. John como “o orgulho de Nova Orleães”. Desde os seis anos de idade que Butler toca piano e desde sempre combina e desenvolve vários estilos. A sua biografia oficial apresenta referências que começam com o estudo com o Professor Longhair e passam por gente tão diferente como McCoy Tyner e mestrados de formação clássica-erudita em piano, trompete, trombone, percussão e voz. Assume que a sua música é uma amálgama de jazz, música das Caraíbas, do Brasil, de Cuba, da pop, do blues, do R&B... Ao longo da sua carreira, são inúmeros os músicos de primeiro plano com quem trabalha, de Cannonball Adderley a Charlie Haden ou Jack DeJohnette, para indicar apenas alguns nomes. A sua discografia é particularmente extensa, mas os exemplos marcantes mais recentes são Orleans Inspiration, de 1990, o notável Blues After Sunset em 1998 e o registo com Corey Harris de 2000 intitulado Vu-du-Menz, um trabalho profundo de exploração dos blues do Delta. Seguiram-se o eléctrico The Game Has Just Begun, em 2002 e Homeland, em 2004, quando Butler, pela primeira vez, grava em estúdio com um grupo de blues e R&B e o recente PiaNOLA Live.
Henry Butler - The Entertainer
12 de Fevereiro de 2010 21h30 · Grande Auditório Carlos Martins Água
Saxofone Tenor Carlos Martins Piano Bernardo Sassetti Guitarra André Fernandes Contrabaixo e baixo eléctrico Nelson Cascais Bateria Alexandre Frazão
Nascido em Etiópia, no Alentejo, em 1961, o saxofonista e compositor Carlos Martins começou por estudar música e clarinete na Banda Filarmónica de Grândola, a partir dos 14 anos de idade. Tendo ingressado mais tarde nos cursos de saxofone e composição do Conservatório Nacional (Lisboa), estudou ainda na Escola de Jazz do Hot Clube de Portugal, onde também foi docente. Desenvolvendo a sua carreira na área do jazz, em que tocou ao lado de inúmeros músicos portugueses e estrangeiros, Carlos Martins está também ligado à composição para o cinema e para o bailado, mantendo uma forte ligação à música erudita, domínios em que colaborou com Constança Capdeville, Álvaro Salazar, João Paulo Santos e os coreógrafos Rui Horta e Vera Mantero. Quanto à sua actividade no jazz e em relação a este projecto, segundo as próprias palavras de Carlos Martins: “Ser músico de jazz é ter confiança no acaso. É aceitar a disciplina necessária para manusear o instrumento como se domina uma linguagem. É acreditar no erro como fonte de inspiração. É compreender o outro e aceitá-lo. É um diálogo permanente, sem palavras, do som e das cores que pintam os estados de espírito. É mesmo inventar esses estados em conjunto, libertando-nos do eu, sendo assim cada um mais o que realmente é. Como um quinteto a solo neste projecto, respiramos o mesmo ar e acertamos os nossos gestos e sonoridades fingindo o que deveras somos, um conjunto de impressões e solidões partilhadas. E fazemos disso a música que produzimos; e se a música gostar de nós faz-nos ser outras pessoas, com mais alegria. Trocamos identidades para dar à música o que tanto desejamos: a liberdade."
Carlos Martins - Azul Mediterrâneo
25 de Fevereiro de 2010 21h30 · Pequeno Auditório The Fish
Saxofone alto Jean Luc Guionnet Contrabaixo Benjamin Duboc Bateria Edward Perraud
A música dos The Fish é o free jazz. Sem meias palavras, por mais que o termo assuste alguns. Free jazz, entenda-se, como estrutura, não como uma tradição. É um exemplo de como se pode fazer muito mais do que invocar o passado. O duplo CD ao vivo que editaram na Ayler Records é o que se pode classificar como um acto de coragem. Os seus concertos deixam o público a ofegar, num êxtase total. Os The Fish são um grupo raro no panorama do jazz europeu pela organicidade e crueza da sua abordagem, menos virada para a cabeça e mais para o coração. O primeiro impacto junto do ouvinte surge do som brutal, e logo a seguir do ritmo e das dinâmicas que utilizam na sua música. Que dá vontade de dançar ou, pelo menos, que nos faz abanar o corpo, numa experiência fundamentalmente física. Na revista Wire (uma publicação de referência na música do nosso tempo), Julian Cowley disse deles que “não há nada de redundante na estamina, alta tensão e na sinuosa fluência da música dos The Fish.” E Henrik Kaldahl na Jazznett.com deixa o alerta: “os The Fish são uma bomba”. Dando seguimento ao objectivo de surpreender o público deste ciclo, “Isto é Jazz?”, e mostrar as novas formas que o jazz pode assumir, metamorfoseando-se a todo o momento, apresentam-se os The Fish, o free jazz no século XXI com energia rock.
The Fish - Jazz a Mulhouse 2006
5 de Março de 2010 21h30 · Pequeno Auditório Norberto Lobo
Guitarra acústica de 6 e 12 cordas, tambura Norberto Lobo Guitarra acústica Guilherme Canhão Vibrafone, percussões, outros objectos Ian Carlo Mendoza
Norberto Lobo (Lisboa, 1982) torna sua uma panóplia de tradições, no sentido em que passaram a constituir parte de si próprio, da sua música. É como se nele morassem várias músicas primitivas, mas elaboradas, filtradas pelas escolas da folk, trabalhadas técnica e harmonicamente com sofisticação. Guitarrista de todas as guitarras, a solo, Norberto Lobo dedica-se às acústicas. Na sua música estão lá Carlos Paredes e o Tejo; Paulinho da Viola e noites e tardes e manhãs do Brasil; John Fahey, Charley Patton e o blues como matriz primordial para dor e ardor, ladeados por som de toda a África e de ilhas esquecidas. Mas está algo mais, algo de outro para além disso. Um amor por todas as músicas e todos os músicos que vivem deste negócio de sentir para pôr em prática, para sentir outra vez e mais. Gravou dois CD’s, Mudar de Bina (Borland, 2007) e Pata Lenta (Mbari, 2009), muito aclamados pela crítica e pelo público. Para este concerto traz consigo, para a interpretação de algumas peças, dois convidados com quem colabora regularmente no trio Trigala. Ele próprio toca tambura, instrumento de cordas de origem indiana, feito à mão, e que lhe foi oferecido por um admirador na Dinamarca.
Norberto Lobo - Mudar de Vida
25 DE MARÇO de 2010 21h30 · Grande Auditório Vinicio Capossela Solo Show, de Pier Paolo Pasolini
“Solo Show não foi buscar inspiração ao circo (…) mas às tendas que eram colocadas ao redor do circo no tempo dos espectáculos dos Barnum (…). Nessas tendas ao lado exibiam-se prodígios, aberrações e animais esquecidos por Noé. ‘A vaca de cinco patas’, ‘o porco com duas cabeças’, ‘a cabra de um só corno’. Criaturas para apenas serem mostradas, porque não tinham outros talentos. Solo Show é também uma criatura de duas cabeças, dividida por um interlúdio burlesco – 15 minutos de ilusionismo. (…) Na primeira parte as atracções espelham o interior do homem. Toda a sua alma emerge na sua cara, tornando-o um monstro, como todas as criaturas múltiplas que são três coisas numa, mas nenhuma das três. (…) A segunda parte é o tempo de aparecerem as atracções que estavam representadas no cenário que é içado no intervalo: ‘o peixe gelatinoso’, o ‘polvo apaixonado’, ‘a sereia dos abismos’, ‘o Minotauro’. (…) Chama-se Solo Show porque vamos ter que lidar com ele sozinhos, segurando-nos bem, tanto no palco como na plateia. E também porque, afinal, é apenas um espectáculo.” Extractos de um texto sobre o show escrito pelo próprio Vinicio Capossela
Capossela esteve na Culturgest, num espectáculo memorável que esgotou o Grande Auditório, em Novembro de 2007. Volta com o seu novo trabalho, um espectáculo musical circense, porventura ainda mais belo e fantástico que o anterior, com música do seu último CD, Da Solo (Outubro de 2008). Solo Show já foi apresentado, com enorme sucesso (em seis meses, entre 2008 e 2009, foi visto por mais de 100 000 espectadores), em Itália, na Suíça, na Bélgica, em França, na Alemanha, no Luxemburgo, na Grã-Bretanha, em Espanha. No final de 2009 foi editado um conjunto DVD+CD intitulado Solo Show Alive.
Vinicio Capossela - Solo Show Alive ( Una Giornata Perfetta + Il Paradiso dei Calzini)
26 DE MARÇO de 2010 21h30 · Grande Auditório Fred Hersch Recital a Solo
Está só ao alcance dos raros talentos do jazz um recital de piano-solo de grande duração. Instrumentista de impressionante destreza técnica, sabendo extrair do piano vários cambiantes tímbricos e assim criando os diferentes estados emocionais que só este instrumento nos pode ofertar, o pianista norte-americano Fred Hersch alcançou, sem dúvida, o estatuto desses raros, tendo já tocado em salas prestigiadas como o Carnegie Hall de Nova Iorque ou o Concertgebouw de Amesterdão. Transformando positivamente a variação e a improvisação jazzística num apaixonante estado de criação e composição instantânea, Hersch faz parte ainda daqueles eleitos para os quais o teclado pianístico se torna uma verdadeira orquestra e as peças que vai buscar à inspiração de terceiros se transformam em composições próprias, com uma marca de origem inconfundível. Grande cultivador das baladas, amplo conhecedor do variadíssimo repertório dos standards e compositor de grande e singular sensibilidade, não admira que, para além de dirigir formações instrumentais próprias, de muito diferente configuração, Fred Hersch tenha tocado ao lado de grandes figuras do jazz, como Stan Getz, Joe Henderson, Art Farmer, Toots Thielemans ou Jane Ira Bloom, entre tantos outros. De uma discografia volumosa e diversificada, alguns álbuns ficaram que retratam a multiplicidade dos seus interesses musicais: a trilogia Songs Without Words, Leaves of Grass (inspirado em Walt Whitman) ou Night and the Music, pertencem ao número dos mais inspirados.
Um incêndio de causas desconhecidas, ocorrido esta madrugada, destruiu o velho edifício da Câmara Municipal de Lisboa onde se encontra instalado há 61 anos o Hot Club de Portugal. Apesar de o incêndio ter lavrado apenas nos pisos superiores do prédio, destruindo a cobertura, o clube sofreu danos graves, sobretudo devido à água que se acumulou na cave, proveniente do combate ao incêndio. O futuro do clube está pois presentemente rodeado de incertezas.
A Presidente da Direcção do Hot Clube de Portugal, Inês Cunha, afirmou que dificilmente a sala poderá voltar a ser utilizada, porque a cave ficou inundada e os instrumentos e os amplificadores destruídos. Já Bernardo Moreira, anterior Presidente da Direcção, mostrou-se mais optimista na recuperação do prédio, mediante a intervenção da Câmara Municipal de Lisboa. A Protecção Civil concluiu que não há risco de derrocada no prédio mas confirmou a inexistência de condições para manter abertas as portas do Hot. A Câmara de Lisboa fez saber que a vereadora da Cultura está disponível para receber os responsáveis do Hot Clube, já que o edifício ficou sem condições de acolher aquele que é um dos mais antigos clubes de jazz do mundo. Bernardo Moreira, presidente da assembleia-geral do Hot Clube, disse que espera manter os espectáculos, apontando o São Jorge como uma boa solução, se for possível. A ver vamos… Desde já um grande abraço solidário a todos os responsáveis e colaboradores do Hot e os meus votos sinceros de que seja possível, a breve prazo, encontrar uma solução duradoura para o Clube. O país precisa do Hot!
Segunda, 21 de Dezembro 17.30h – Igreja da Misericórdia (Tavira) - Rui Baeta e Ruben Alves 18.00h – Av. dos Aliados (Porto) – Luis Represas & Convidados 23.30h – Catacumbas (Lisboa) – 4teto Pedro Teixeira
Terça, 22 de Dezembro 17.30h – Igreja da Misericórdia (Tavira) - Faith Gospel Choir 21.30h – CC Lagos - Orquestra de Jazz de Lagos - Concerto de Natal 23.00h – Hot Club (Lisboa) - The return of Eurobotz 23.30h – Catacumbas (Lisboa) - Messias & The Hot Tones
Quarta, 23 de Dezembro 21.30h – CC Lagos - Orquestra de Jazz de Lagos + Jay Corre «Concerto de Natal» 23.00h – Hot Club (Lisboa) - The return of Eurobotz
Sexta, 25 de Dezembro 23.00h – Breyner 85 (Porto) – Jam Session X-mas Special Edition
Sábado, 26 de Dezembro 18.00h – Teatro Diogo Bernardes (Ponte de Lima) - André Sardet e Coral Gospel 22.30h – Braço de Prata (Lisboa) – Júlio Resende & Sofia Vitória 23.00h – Ondajazz (Lisboa) – Yami 23.00h – Tertúlia Castelense (Maia) – Sofia Ribeiro & Marc Demuth 23.00h – Teatro de Vila Real – Jazzy Christmas 23.00h – Hot Club (Lisboa) - Carlos Bica & The Happy Christmas Band 01.00h – Breyner 85 (Porto) – 5teto Vitor Pereira
Em Alcântara, a Ler Devagar é um espaço ao dispôr dos lisboetas, onde se pode conjugar as boas leituras com a boa música. Aqui fica o programa até ao fim do ano:
16 de Dezembro – Quarta
21H30- Lançamento livro de poesia "Poemas Polaroid", de José Dias, edição de Corpos Editora. Apresentação: Filipe Melo e Mafalda Costa Actuação: Desidério Lázaro (saxofone tenor) e António Quintino (contrabaixo)
17 de Dezembro – Quinta
21H30- Debate e apresentação do livro “Duas Linhas” de Pedro Campos Costa e Nuno Louro, Ed. dos Autores Inclui um debate com: Os autores, Álvaro Domingues, João Ferreira Nunes, João Seixas, Mário Alves e Samuel Rego
22H30 – Concerto ‘Rui Eduardo Paes convida…’ com Paulo Curado – flauta, saxofone soprano Nobuyasu Furuya – flauta, clarinete baixo João Lucas – piano Ricardo Freitas – guitarra baixo Entrada: 5€
18 de Dezembro – Sexta
19H00 - Lançamento do livro 'Alentejo em Carne Viva', de José Manuel Silva, edição Papiro Editora
21H00 - Lançamento do livro “Um ano em Telavive” de Cristina Vogt-da Silva, Ed. Papiro Editora
22H30 - Concerto ‘Rui Eduardo Paes convida…’ com Eduardo Lála – trombone Pedro Lopes – gira-discos, electrónica Travassos – cassetes, objectos amplificados, electrónica Gabriel Ferrandini - percussão Entrada: 5€
19 de Dezembro – Sábado
22H30 - Concerto ‘Rui Eduardo Paes convida…’ com Carlos “Zíngaro” – violino Pedro Carneiro – vibrafone Ricardo Guerreiro - electrónica Entrada: 5€
24H00 - Concerto ‘Suspensão’, com Ernesto Rodrigues - viola Guilherme Rodrigues - cello Gil Gonçalves – tuba Nuno Torres - alto saxophone António Chaparreiro – gitarra electrica Carlos Santos – electronica José Oliveira – percussão Entrada: 5€
20 de Dezembro – Domingo
16H00 – Ensaio e …
17H00 - Concerto - Os alunos e a professora Vera Prokic do Estúdio de Piano José Vianna da Mota convidam para a Audição de Natal – 6ª Audição
31 de Dezembro – Quinta
20H00 – Ceia Fim de Ano (sujeito a reserva em: livraria@lerdevagar.com)
Segunda, 14 de Dezembro 23.30h – Catacumbas (Lisboa) – Quarteto de Paulo Lopes
Terça, 15 de Dezembro 21.00h – Arte à Parte (Coimbra) – José Valente 21.30h – Culturgest (Lisboa) - Nate Wooley e Paul Lytton 22.00h – Braço de Prata (Lisboa) – Trio de Gonçalo Marques 23.30h – Cataumbas (Lisboa) – Messias & The Hot Tones
Quarta, 16 de Dezembro 21.30h – Livraria Trama (Lisboa) – José Valente 22.30h - Braço de Prata (Lisboa) - Longitude Zero 23.00h – Hot Club (Lisboa) – Sofia Ribeiro & Florian Weber
Quinta, 17 de Dezembro 22.00h – Livraria Trama (Lisboa) – New Trio 22.00h – Teatro Municipal da Guarda - French Swing Café 22.00h – Teatro Maria Matos (Lisboa) - Alèmu Aga 22.30h - Braço de Prata (Lisboa) - Paula Sousa Quarteto 23.00h – Hot Club (Lisboa) - 17 Cenas de Imyra 23.30h – Catacumbas (Lisboa) - Spaghetti Jazz 23.30h – Renhau-Nhau (Caparica) - Sérgio Godinho
Sexta, 18 de Dezembro 20.00h - Braço de Prata (Lisboa) - Nicole Eitner 21.00h – CCB (Lisboa) - Jacinta 21.30h – CC Caldas Rainha – Filipe Melo 21.30h – Auditório Ruy de Carvalho (Carnaxide) - Joel Xavier 22.00h – Zé dos Bois (Lisboa) – Mikado Lab 22.30h – Centro Cultural do Cartaxo - Trio Bárbara Lagido 22.30h - Braço de Prata (Lisboa) - Maria João & João Farinha 23.00h – Hot Club (Lisboa) - 17 Cenas de Imyra 23.00h – Museu do Douro (Régua) - Rui Cruz Trio
Sábado, 19 de Dezembro 12.00h – Casa da Música (Porto) - Susana Santos Silva Quinteto 21.30h – CC Lagos - AJMMA All Stars 21.30h – Teatro Sá da Bandeira (Santarém) - Quarteto de Art Themen 22.00h – Cine Teatro Constantino Nery (Matosinhos) - Orquestra de Jazz de Matosinhos «Big Bands: do Ball Room à Sala de Concerto»: IV- As big-bands e o jazz moderno 22.00h – Espaço Pedro Remy (Braga) - Sofia Ribeiro & Florian Weber 22.30h - Braço de Prata (Lisboa) - Luís Barrigas Quarteto 22.30h - Braço de Prata (Lisboa) - Ogre 23.00h – Hot Club (Lisboa) - 17 Cenas de Imyra 23.00h – Museu do Douro (Régua) - Royal Jazz Band 23.30h - Ondajazz (Lisboa) - Amar Guitarra 24.00h - Braço de Prata (Lisboa) - Quarteto Ibérico 01.00h – Breyner 85 (Porto) – Sandro Norton 4teto
Domingo, 20 de Dezembro 22.00h - Braço do Prata (Lisboa) - Trio de Gonçalo Marques 23.00h - Braço de Prata (Lisboa) - Mick Trevoada
Neguyên Lê, Prabhu Edouard, Mieko Miyazaki com a participação de Hariprasad Chaurasia Saiyuki ACT, 2009
Em Maio de 2008, por ocasião da inauguração do Museu do Oriente, em Lisboa, Mário Laginha estreou uma obra encomendada por esta instituição e na qual pretendeu fundir os universos clássico, jazzístico e oriental. A acompanhá-lo estiveram o guitarrista de origem vietnamita Nguyên Lê, o tablista indiano Prabhu Edouard e ainda o percussionista e flautista japonês Joji Hirota. Se outros méritos esta obra não tivesse (relembro que continua por editar em disco), e teve muitos, bastaria o de ter servido de mote para uma colaboração entre o guitarrista e o tocador de tabla, ambos residentes em Paris. Juntou-se-lhes ainda a japonesa, também residente em Paris, Mieko Miyazaki, tocadora de koto (a cítara japonesa) e shamisen (guitarra tradicional de três cordas) e nasceu o Saiyuki Trio, que em Julho passado se apresentou entre nós, uma vez mais no Museu do Oriente. Este disco, gravado em Paris, com produção e mistura do próprio Lê, conta ainda com a participação em três temas do flautista indiano Hariprasad Chaurasia, com mais um instrumento tradicional asiático, a flauta bansuri. O resultado é aquilo que se podia esperar, sobretudo para quem se deliciou com os dois concertos no Museu do Oriente, como foi o meu caso: uma deslumbrante viagem pela música asiática, guiada pela enorme criatividade e sensibilidade de Lê. Na verdade o nome do álbum e do trio, Saiyuki, designa precisamente uma obra literária chinesa do séc. XVI, do poeta Wu Cheng’en, que se poderia traduzir por “Viagem Para o Ocidente”. Uma questão de perspectivas… O álbum começa na Índia com o tema Sweet Ganesh de Prabhu Edouard. Tema inspirado no simpático deus de cabeça de elefante, mestre do intelecto e da sabedoria. Alegre e apelativo, é a introdução perfeita para um disco que promete uma viagem inesquecível pela música asiática. Se o mote de Edouard é claramente indiano, já a suavidade da guitarra de Lê e o koto de Miyazaki levam-no para terras mais levantinas. O solo vocal de Edouard é quase um scat singing, digno de Bollywood. Em Autumn Wind a referência é a China continental. Um tema lento, ambiental, evocativo das planícies asiáticas e do vento que as percorre no Outono. Belo e lírico, resulta igualmente pelo contraste com a alegria ganeshiana do tema inicial. Aos agudos da guitarra de Lê sobrepõe-se a flauta bansuri do indiano Hariprasad Chaurasia e também o Shamisen tocado por Miyazaki. Este é outro Oriente, onde o tempo passa lentamente, ao sabor do suave decorrer das estações do ano, das colheitas e das meditações budistas. Um riff de blues abre as hostilidades em Mina Zaki, um tema da japonesa onde Oriente e Ocidente se encontram. Rápido e dançável, cruza o rendilhado do koto com os acordes distorcidos da guitarra e a flauta bansuri de Chaurasia. O jazz e o blues não andam longe, embora os instrumentos remetam invariavelmente para o Oriente. O Extremo Oriente ao ritmo de um western. Mayur marca o regresso ao subcontinente indiano. A guitarra freetless e o shamisen desenvolvem um diálogo intercontinental onde o jazz se mostra novamente pertinente. Sangam é uma celebração do encontro de culturas. Outra oportunidade para as origens diversas dos intérpretes se encontrarem num tema que celebra a fusão, de modo alegre e amplamente conseguido. Oriente e Ocidente juntos com Lê a destacar-se num solo onde surgem até referências africanas, no ritmo, fraseado e até pela inclusão dos coros. Azur é um tema enigmático, por vezes perturbador. A inspiração é chinesa e vietnamita. Hipnótico e redundante na melodia, vive das pequenas variações que os génios musicais dos intérpretes criam pela sucessão dos instrumentos, construindo diversas acepções do tema. Uma pérola minimalista, de uma beleza e simplicidade desarmantes. Um Japão festivo é apresentado por Miyazaki no tema Izanagi Izanami, num diálogo construtivo com a guitarra de Lê, sob a omnipresença da percussão de Edouard. Diálogo esse que é transposto posteriormente para as vozes de Edouard e de Miyazaki. Há ecos medievais neste tema. A Indochina regressa pelas mãos de Lê, em Hen Ho. Nova incursão pela Ásia continental num diálogo mais jazzístico e crescente entre a guitarra e o shamisen. Nanae Goromo é o único tema assinado pelo trio e constitui uma incursão pela tradição oriental mais dramática. Uma canção onde a teatralidade do Kabuki ou da ópera chinesa vêm à lembrança. Mas o desenvolvimento instrumental é novamente de fusão panasiática, sempre com o ocidente à espreita através da guitarra de Lê, que decompõe o tema numa interpretação de inspiração jazzística. A fechar o disco Ile, uma belíssima balada de Edouard carregada de nostalgia emprestada pelo arranjo e interpretação da suave guitarra de Lê. Uma Índia nostálgica e apaixonante. Uma celebração do world jazz por um dos seus maiores intérpretes. Obrigatório.
Cascais Jazz Legends 6 de Dezembro de 2009, 18.00h Auditório do Centro de Congressos do Estoril
O Cascais Jazz renasceu. Muito se tem dito sobre a temerária iniciativa de Duarte Mendonça, de bem e de mal, mas o festival esse, aí esteve para satisfação dos jazzómanos. Perdeu-se o espírito da iniciativa histórica de Luís Villas-Boas, perdeu-se ainda a riqueza do cartaz, quer do Cascais Jazz original, quer ainda do mais novel Estoril Jazz, igualmente produzido por Mendonça. Mas ganhou-se jazz, bem como a oportunidade de ouvir algumas das suas velhas glórias que passaram pelo palco do Pavilhão do Dramático de Cascais ao longo das décadas de 70 e de 80. Pelo que, entre aplausos e apupos, a iniciativa passou por mérito próprio. O prato forte do festival foi o concerto de encerramento, denominado “Cascais Jazz Legends” e protagonizado por músicos de renome, todos eles presentes nas edições do Festival entre os anos de 1972 e 1978. Transformou-se assim numa justa homenagem, não apenas àquele que foi, sem dúvida, o período áureo do Festival, mas também a um elenco de enormes músicos, que por lá passaram e que hoje, mais de trinta anos volvidos e entrados nos setentas e oitentas, bem a merecem. Este quinteto denominado “Cascais Jazz Legends” foi formado pelo saxofonista Phil Woods, que com a sua European Rhythm Machine, por lá passou em 1972 (voltou em quarteto em 1980), pelo trompetista Lew Soloff, o mais jovem da formação com 65 anos de idade, que integrou a banda de Gil Evans que actuou em Cascais em 1976, pelo pianista Cedar Walton, que actuou em 1973 ao lado de Freddie Hubbard, Joe Henderson e Gary Burton, entre outros, pelo contrabaixista Rufus Reid, que acompanhou Dexter Gordon em 1978, e pelo baterista Jimmy Cobb, o decano da formação com os seus 80 anos de idade, que tocou em Cascais em 1973, acompanhando Sarah Vaughn. Trezentos e setenta e cinco anos de experiência chegaram e bastaram para deixar rendida a audiência, que enchia por completo o auditório do Centro de Congressos do Estoril, mesmo quando as forças pareciam faltar. Phil Woods, principalmente, revelou algumas debilidades físicas que o impediram de comparecer no encore e lhe retiraram a energia e fulgor que foram a sua imagem de marca. Restou contudo a técnica soberba e a enorme experiência que lhe permitiram acompanhar com brio e sabedoria os seus pares. Também Cedar Walton revelou limitações, que o som não ajudou, rubricando uma actuação qb, sem iniciativas temerárias nos solos e jogando claramente à defesa. No plano oposto estiveram Rufus Reid, imperial no contrabaixo, com uma técnica notável e um swing único e, sobretudo, Lew Soloff no trompete. Aproveitando o facto de ser o mais jovem em palco deu realmente mostras de juventude e irreverência nos solos, com destaque para os agudos que o celebrizaram, mas sempre irrepreensível na técnica e na entrega. Partiram dele os solos mais aplaudidos e os momentos mais conseguidos do concerto. Demonstrou estar numa forma notável. Jimmy Cobb defendeu-se como os seus 80 anos lhe permitiram, mas conseguiu ainda finalizar a actuação com um solo revelador de que quem sabe, nunca esquece. Uma homenagem sentida a um grande Festival e a uma grande geração de músicos. A repetir.
Sexta, 11 de Dezembro 22.30h - Sala Eduardo Prado Coelho - Luis Barrigas 23.00h - Sala Nietzsche - Belle de Jour 23.00h - Sala Visconti - Rogério Pires e Mick Trevoada
Sábado, 12 de Dezembro 23.00h - Sala Prado Coelho - Desgarrada Flamenca 22.30h - Sala Nietzsche - Júlio Resende e convidados 23.30h - Sala Visconti - Roda de Choro 24.00h - Sala Nietzsche - Jazz com DLV
Domingo, 13 de Dezembro 22.00h - Sala Nietzsche - Trio César Cardoso