sábado, 8 de novembro de 2008

Bernardo Sassetti Trio no Hot



Bernardo Sassetti Trio
7 de Novembro 2008, 23.00h
Hot Club de Portugal (Lisboa)
*****

Com um notável percurso que já ultrapassou os dez anos, este Trio de Bernardo Sassetti é hoje uma instituição do nosso jazz, tal como os seus membros: Bernardo Sassetti no piano, Carlos Barretto no contrabaixo e Alexandre Frazão na bateria e percussão.
Apesar da enorme qualidade do trio não é frequente a sua apresentação no palco do Hot Club. Pelo que, quando tal sucede, é sempre um acontecimento.
Sassetti é um mestre dos silêncios e um deconstrutor de temas. A sua abordagem do piano alterna entre um intimismo quase romântico e uma abstracção expressionista exuberante. Mas sobretudo tem uma rara capacidade de motivação, capaz não apenas de o embalar em inspirados e originais solos, mas sobretudo de catapultar os músicos que o acompanham para frequentes momentos de talentoso protagonismo.
Foi sem dúvida o caso desta feliz apresentação no Hot. Mais ainda do que o talento de Sassetti no piano, que é indesmentível e foi amplamente confirmado em palco, sobressaiu a sua invejável capacidade de apropriação dos temas através de belos arranjos (penso que a tal não será alheio o resto do trio, também eles parceiros fundamentais nesse trabalho) e também as assombrosas exibições de Carlos Barretto e Alexandre Frazão, cada um deles com uma mão cheia de solos de enorme classe e mostrando um entendimento soberbo na assumpção das despesas rítmicas da apresentação. Com uma secção rítmica deste gabarito a tarefa de Sassetti fica incomensuravelmente facilitada!
Mas longe de mim a ideia de questionar o talento do líder deste fantástico trio. Quero tão-somente realçar o quão importante é o contributo dos seus dois companheiros de palco, o qual surge também inegavelmente associado à liderança segura e exigente do pianista.
Esta foi sem dúvida uma apresentação especial. Porque a qualidade dos músicos e da obra em palco assim o ditava. Porque o Hot respondeu à altura do chamamento. E porque assim se juntaram os ingredientes necessários para construir uma grande noite de jazz, coroada com dois encores exigidos pelo público, coisa rara nesta histórica cave da Praça da Alegria.
E sobretudo porque tudo aconteceu com naturalidade e descontracção. Quase pareceu uma jam session de três músicos que se conhecem perfeitamente.
Longe dos formalismos e retóricas das grandes apresentações, nesta grande noite de jazz (terminou já passava das duas) tudo se passou entre amigos e ao sabor da inspiração.
E assim se fez jazz.
A completar estas notas deixo-vos com um vídeo do tema Time for Love, escrito por Johnny Mandel, tema que abre o álbum Nocturne (Clean Feed, 2002) e que foi igualmente escolhido para a abertura deste concerto. As fotos são da autoria do fotógrafo português Nuno Boavida. Podem vê-las em http://www.pbase.com/nunoboavida/as_palavras_que_nunca_te_direi.

Bernardo Sassetti Trio - Time For Love

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Fim de Semana no Braço de Prata


Quinta-feira, dia 06 de Novembro
22.00h - Sala Nietzsche - «Ciclo das Palavras» Marina Cedro (voz e piano).
23.30h - Sala Nietzsche - Alexandre Dinis Quarteto

Sexta-feira, dia 07 de Novembro
22.00h - Sala Prado Coelho - Marco Alonso – flamenco
22.30h - Sala Nietzsche - Assim falava Jazzatustra - Júlio Resende e convidados
23.30h - Sala Visconti - Flor de Lis
23.30h - Sala Nietzsche - Sílvia Nazário

Sábado, dia 08 de Novembro
22.30h - Sala Prado Coelho - Free Fucking Notes - Marta Plantier (Voz) e Luís Barrigas (Piano)
23.00h - Sala Nietzsche – CORSAGE
23.30h - Sala Visconti - ERRO!
24.00h - Sala Prado Coelho - Fados com Hélder Moutinho e convidados

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Cristóbal Repetto na Culturgest



Cristóbal Repetto
4 de Novembro de 2008, 21.30h
Grande Auditório da Culturgest, Lisboa
*****

“Dizem que só a partir dos 30 se pode cantar o tango. Mas eu venho de um país onde se sofre muito antes dos 30…”
Cristóbal Repetto ainda não tem 30 anos e já há muito que canta o tango. Não o tango galante e marialva de Gardel, mas o tango campesino, que se toca e sente nos bailes dos pueblos das pampas argentinas, onde nasceu há 29 anos. Cresceu rodeado de música. De velhas cassetes que tocavam as mágoas de viver, cantadas por grandes músicos populares argentinos como Jorge Cafrune, Mercedes Sosa, Violeta Parra, Ignacio Corsini, Roberto Goyeneche e claro está, também por Carlos Gardel. Absorveu como uma esponja esse profundo fado argentino e, logo que pôde, foi cantá-lo para as peñas e festividades locais. Daniel Melingo descobriu-o e levou-o para os palcos de Buenos Aires e depois do mundo. Dele disse Gustavo Santaolalla: “Tiene todo el aspecto de um pibe moderno, pero quando abre la boca suena como un vinillo de los años 30, los de 78 revoluciones por minuto”.
Repetto é um fenómeno. A verdadeira personificação do tango enquanto fenómeno cultural popular. Teatral, deliberadamente maneirista, propõe uma exótica viagem ao passado. Ao início do século XX, quando o tango surgiu possante nos cabarets de Buenos Aires e iniciou a sua expansão triunfante para a Europa e para o mundo.
O seu repertório evita deliberadamente os ícones. Repetto não quer ser o novo Gardel, objectivo inatingível e demasiadas vezes procurado. Ele quer ser apenas um embaixador do verdadeiro tango popular, aquele que brotou espontaneamente do cruzamento de culturas na Argentina do início do século XX e se inscreveu no imaginário popular de tantos povos, incluindo o nosso.
Por isso não se limita a cantar o tango. Vai redescobrindo as suas origens, pondo-as a nú. E conduzindo o ouvinte nessa viagem pelos primórdios da canção nacional argentina, cantando habaneras, milongas e canyuenges.
Cristóbal Repetto insere-se também num movimento cultural que tem nos seus cultores nomes como Rufus Wainwright, Antony Hegarty, Edson Cordeiro ou os nossos Nuno Guerreiro e Paulo Bragança. Símbolos que vivem a arte à flor da pele e assumem, na teatralidade dos seus gestos, na colocação da voz, no assumir dos maneirismos associados à música e ao revivalismo do repertório, valores culturais de referência, responsáveis pelo surgimento de um universo musical gay que se tem imposto e adquirido um número crescente de adeptos junto dos mais variados públicos.
A acompanhar Repetto na Culturgest esteve apenas a guitarra de Ariel Argañaraz. Um grande guitarrista que conseguiu sozinho assegurar as despesas de um espectáculo manifestamente exigente. O tango que nos habituámos a ouvir acompanhado pelo bandaneón, ou ainda pelo piano, não surgiu minimamente beliscado por tão singelo acompanhamento. Nas mãos de Argañaraz a guitarra descobriu sonoridades inusitadas, bem como toda a emoção associada aos famosos cortes e quebradas tradicionais do tango. Outra exibição de grande virtuosismo.
Um grande espectáculo de dois músicos de que ainda iremos ouvir falar muito…

El Tabernero


Organito


Acquaforte

domingo, 2 de novembro de 2008

Ornette Coleman em Lisboa e no Porto



Ornette Coleman
4ª feira, 5 de Novembro, 21.30h – Aula Magna (Lisboa)
6ª feira, 7 de Novembro, 21.30h – Coliseu (Porto)

Coleman nasceu em 1930 em Forth Worth, no Texas e é considerado um dos principais inovadores do movimento free jazz, dos anos 50 e 60 do século XX. Saxofonista, violinista, trompetista e compositor, autor de jazz standards como "Lonely Woman," "Peace," "Turnaround," "When Will the Blues Leave?" "The Blessing," "Law Years," "What Reason Could I Give" and "I've Waited All My Life", continua aos 78 anos a tocar a a influenciar as gerações mais novas de músicos de jazz.
Esteve em 2007 no Jazz em Agosto, na Gulbenkian e regressa agora para dois concertos, em Lisboa e no Porto baseados no seu mais recente trabalho Sound Grammar, obra que lhe valeu um Pulitzer em 2007.

Berlim Jazz Tage 1972


Tema de Naked Lunch, de David Cronenberg

Patricia Barber no Teatro Camões



Patrícia Barber
2ª feira, 3 de Novembro, 21.30h – Teatro Camões (Lisboa)

Nascida em Chicago no ano de 1956 e filha de músicos (o pai, Floyd "Shim" Barber, fez parte da orquestra de Glenn Miller), Patrícia Barber é uma das vozes mais populares do jazz norte-americano actual. De voz grave e arrastada, num inconfundível estilo blues-jazz, a música de Barber pauta-se geralmente por letras irreverentes e arranjos fortemente pessoais.
Neste concerto de Lisboa vai apresentar-se com o seu habitual quarteto composto por ela própria no piano e voz, Erik Motzka na bateria, Michael Arnopol no contrabaixo e Neal Alger na guitarra.
O repertório deverá incidir sobretudo em temas de Cole Porter, incluídos no mais recente trabalho de Barber, denominado The Cole Porter Mix e editado recentemente pela Blue Note Records.

You’re the Top (Belgrado, 26/10/2008)
Com Erik Montzka, Michael Arnopol e Neal Alger


Someday My Prince Will Come (Belgrado, 26/10/2008)
Com Erik Montzka, Michael Arnopol e Neal Alger

Agenda Jazz, 3 a 9 de Novembro


2ª feira, 3 de Novembro
21.30h – Culturgest (Lisboa) – Cristóbal Repetto
21.30h – Teatro Camões (Lisboa) – Patrícia Barber
21.30h – Cine teatro de Torres Vedras – Tango Quattro
22.30h – Casino Lisboa - Guru Jazzmatazz + Moodyman

3ª feira, 4 de Novembro
22.30h – Ondajazz (Lisboa) – Big Band Reunion

4ª feira, 5 de Novembro
21.30h – Aula Magna (Lisboa) – Ornette Coleman
22.30h – Teatro Aveirense (Aveiro) – Rafel Toral
22.30h – Ondajazz (Lisboa) – Triângulo
23.00h – Hot Club (Lisboa) - Quarteto de Rui Pereira

5ª feira, 6 de Novembro
21.30h – Teatro Ibérico (Lisboa) – Madredeus e a Banda Cósmica
23.00h – Musicbox (Lisboa) – JB Ensemble
23.00h – Ondajazz (Lisboa) – Bruno Pernadas
23.00h – Hot Club (Lisboa) – Bernardo Sassetti Trio

6ª feira, 7 de Novembro
21.30h – Teatro Ibérico (Lisboa) – Madredeus e a Banda Cósmica
21.30h – Coliseu (Porto) – Ornette Coleman
21.30h – Cine Teatro de Torres Vedras - Danças Ocultas & Renato Borghetti & Martin Lubenov
22.00h – Teatro São Luiz (Lisboa) - JP Simões
23.00h – Centro de Artes e Espectáculos de Portalegre - Murdering Tripping Blues
23.00h – Centro Cultural Vila Flor (Guimarães) – Rui Caetano Trio
23.00h – Hot Club (Lisboa) – Bernardo Sassetti Trio
23.30h – Ondajazz (Lisboa) – Alexandre Diniz Quarteto

Sábado, 8 de Novembro
22.00h – Teatro São Luiz (Lisboa) - JP Simões
22.30h – Sociedade Artística Tramagalense (Tramagal) - Murdering Tripping Blues
23.00h – Zé dos Bois (Lisboa) - Variable Geometry Orchestra
23.00h – Hot Club (Lisboa) – Bernardo Sassetti Trio
23.30h – Ondajazz (Lisboa) – Júlio Resende Quarteto

Domingo, 9 de Novembro
17.00h – Fnac Braga - Budda Power Blues
22.00h – Bacalhoeiro (Lisboa) – Luís Lopes + 4

Os Vídeos de Riffs & Strides

Desde que me lancei nesta aventura dos blogues que procurei apresentar vídeos a acompanhar os artigos publicados. Entendo que a música é sobretudo para ser ouvida, não fazendo qualquer sentido debitar extensas considerações sobre obras musicais se, em última análise, ao leitor não for proporcionada a oportunidade de as ouvir e julgar por si mesmo.
Sucede que, nestas coisas do jazz e da música contemporânea, os vídeos não surgem a acompanhar o lançamento dos mais recentes trabalhos discográficos, como sucede com o último disco da Madonna ou dos Metallica! As poucas coisas que aparecem são geralmente gravadas ao vivo e raramente reflectem as particularidades de um determinado álbum ou gravação.
Lembrei-me então que seria interessante associar alguns dos meus temas favoritos, com maior incidência nos trabalhos sobre os quais me debruçava nos artigos publicados no blogue, a belas fotos, preferencialmente com alguma coisa de especial que as ligasse ao tema em questão. Não sendo propriamente um videoclip (nem este blogue a MTV), permitiria ao leitor associar as palavras aos sons e, com alguma sorte na escolha das fotos, às emoções transmitidas pela música apresentada, sendo esta na genial definição de Charles Lloyd, a sublime arte de transmitir emoções.
Meti mãos à obra e elaborei alguns vídeos que, após 8 meses de Riffs & Strides, atingem já a bonita soma de 73. Lançados temerariamente no Youtube (para me permitir a sua fácil exibição no blogue) ganharam vida própria e alcançaram já, no mês de Outubro, a fantástica cifra de 45.000 visionamentos distribuídos pelos cinco continentes. Um número que superou amplamente as minhas mais risonhas expectativas.
Tais vídeos foram elaborados com o único intento de divulgar (aproveitando também a enorme visibilidade do Youtube) obras e músicos que admiro e que, muitas vezes, permanecem num inaceitável quase anonimato, fruto das inúmeras dificuldades de divulgação que os músicos sentem, sobretudo os que permanecem fora do circuito das grandes editoras mundiais.
Tive o enorme prazer de receber inúmeras mensagens de agradecimento pelos vídeos, não só de fãs congratulando-se pela sua divulgação no Youtube como também de músicos, reconhecendo o mérito dos mesmos e da acção de divulgação por eles representada. Escusado será dizer que tais mensagens me encheram de satisfação e me encorajaram a manter esta temerária iniciativa.
Fiel ao mais escrupuloso respeito pela obra artística e pelos seus autores, tive sempre o cuidado de divulgar nos vídeos o nome dos temas, dos músicos que os compuseram, arranjaram e interpretaram, das editoras que os lançaram em disco, nome deste e ano de edição e bem assim dos autores das belas fotos que os acompanham, título do trabalho de onde foram extraídas e o endereço na Internet onde podem ser visitadas.
O seu a seu dono! O meu único propósito é dar a conhecer ao mais amplo público possível as obras visitadas no blogue e nunca apropriar-me de méritos que não me pertencem.
Face ao alargado espólio já disponível de vídeos e bem assim ao enorme número de visionamentos, decidi republicar mensalmente alguns dos vídeos mais visitados, potenciando assim a divulgação das obras deles constantes e permitindo, com tal republicação, a adição de mais alguns elementos interessantes a seu respeito.
Com esta justificação passo a apresentar os vídeos Riffs & Strides mais visitados durante o mês de Outubro:

Bobo Stenson Trio – Don’s Kora Song
Adicionado apenas em 14 de Outubro este vídeo elaborado a partir do tema original do pianista sueco (que ainda recentemente participou no Angra Jazz, nos Açores), composto durante a colaboração deste com o trompetista Don Cherry e inspirado no folclore tradicional do Mali, foi um fulgurante sucesso, com mais de 800 visionamentos em apenas 17 dias. Incluído no mais recente trabalho do pianista, denominado Cantando e editado em 2008 pela ECM, conta com Bobo Stenson no piano, Anders Jormin no contrabaixo e o jovem Jon Faelt na bateria. As fotos escolhidas foram extraídas do trabalho denominado Tribalism, da autoria do extraordinário fotógrafo filipino Manuel Libres Librodo Jr., actualmente residente e docente na cidade de Bangkok, na Tailândia. O seu trabalho é verdadeiramente inspirador e pode ser visto em http://www.pbase.com/manny_librodo. A razão da escolha prendeu-se sobretudo com o carácter primordial destas fotos que, em minha opinião, ligava bem com a primordialidade da pulsação rítmica do tema, inspirado como já referi, no folclore tradicional do noroeste africano. Uma associação feliz, sobretudo para irlandeses, suecos e alemães, os campeões dos visionamentos deste vídeo.


Avishai Cohen Trio - Lo Baiom Velo Balyla e Remembering
Confesso que me apaixonei pela obra deste contrabaixista israelita com um percurso notável no jazz norte-americano, que incluiu passagens pelo trio de Danilo Perez e pelo sexteto de Chick Corea (tocou em Portugal há dez anos, integrado no sexteto Origin de Chick Corea, no Seixal Jazz). Descobri-o por acaso e foi amor ao primeiro acorde. Após o desfrute do disco At Home de 2005, de onde foi extraído o tema Remembering (revisitado ao vivo no disco As If… Live at the Blue Note, de 2007), parti à descoberta de outros trabalhos do contrabaixista, entre eles Gently Disturbed editado já este ano pela RazDaz Records, pequena editora fundada por Cohen e que, além dos seus trabalhos tem editado obras de outros músicos que com ele trabalham como Amos Hoffman, Sam Barsh ou Mark Guiliana. Dele extraí Lo Baiom Velo Balyla, o belíssimo tema original de Cohen inspirado no folclore tradicional israelita.
Ambos os vídeos têm tido um sucesso notável, o primeiro com quase 2600 visionamentos em 150 dias e o segundo com mais de 3300 em 126 dias, o que faz dele o mais visto de todos os 73 vídeos elaborados para o Riffs & Strides, sobretudo em Israel de onde provém a maioria dos espectadores.
Remembering, nesta versão gravada em estúdio e editada em 2005, conta com Avishai Cohen no baixo acústico e eléctrico, Mark Guiliana na bateria e percussão, Sam Barsh no piano, órgão, Fender Rhodes e melódica, Yosvany Terry nos saxofones e chekere, Anne Drummond nas flautas, Diego Urcola no flugelhorn, Jeff Ballard na percussão e Tomer Tzur no hand drum. Já Lo Baiom Velo Balyla foi gravado em trio com Avishai Cohen no contrabaixo, Shai Maestro no piano e Mark Guiliana na bateria. O primeiro está acompanhado de fotos de Joost Bossuyt, fotógrafo belga cuja obra pode ser visitada em http://www.pbase.com/bossuytj. O segundo tem fotos da italiana Anna Pagnacco que podem ser vistas em http://www.pbase.com/annapagnacco.



Kim Kashkashian & Robert Levin - El Mirar de la Maja
Cliente habitual do catálogo ECM já conhecia a obra de Kim Kashkashian, extraordinária intérprete norte-americana de origem arménia da viola de arco, de trabalhos anteriores como a sua memorável colaboração com Jan Garbarek no disco In Praise of Dreams. Já de Robert Levin, menos dado a incursões pelo universo jazz, pouco conhecia. Ambos são docentes em academias norte-americanas (Levin é um reputado musicólogo que lecciona em Harvard) e referências incontornáveis nos seus instrumentos. Este tema, da autoria do compositor espanhol Enrique Granados, consta do disco Asturiana editado em 2007 pela ECM e que versa música espanhola e argentina do século XX. Contém obras de Manuel de Falla (1876-1946), Enrique Granados (1867-1916), Carlos Guastavino (1912-2000), Alberto Ginastera (1916-1983), Xavier Montsalvatge (1912-2002) e Carlos López Buchardo (1891-1948). Está acompanhado de belas fotos solitárias do fotógrafo português Miguel Costa, cuja obra pode ser vista em http://www.pbase.com/miguelcosta.
Com quase 2300 visionamentos em 115 dias foi, para mim, um inesperado sucesso, mas uma prova segura da enorme popularidade e qualidade dos músicos envolvidos.

sábado, 1 de novembro de 2008

One Woman Show



Cindy Blackman Quartet
30 de Outubro de 2008, 21.30h
Auditório Municipal – Fórum Cultural do Seixal
***,5

Cindy Blackman nasceu no Ohio, em 1959, numa família de músicos. Começou por aprender piano mas cedo se virou para a bateria, aos 7 anos de idade. Frequentou o Berklee College of Music em Boston, mas abandonou o curso a meio para ir viver em Nova Iorque, junto dos grandes bateristas que tanto admirava. Nessa sua vívida aprendizagem cruzou-se com referências incontornáveis do jazz como Art Blakey e Tony Williams. Partilhou também os palcos com músicos como Jackie McLean, Joe Henderson, Dan Pullen, Pharaoh Sanders, Sam Rivers, Cassandra Wilson e Bill Laswell.
Foi contudo a sua colaboração com o músico de rock Lenny Kravitz, iniciada em 1993, que lhe granjeou maior popularidade e terá contribuído decisivamente para o apuramento do seu estilo musical: pujante, enérgico e arrebatado.
Em 1996 colaborou com o saxofonista português Carlos Martins na gravação do disco Passagem.
Nesta sua segunda passagem pelo Seixal Jazz (a primeira ocorreu em 1997 integrada no quarteto de Carlos Martins e Bernardo Sassetti) Blackman fez-se acompanhar por J. D. Allen no sax tenor, Carlton Holmes no piano e Fender Rhodes e George Mitchell no contrabaixo.
Cindy Blackman é indiscutivelmente uma força da natureza. Mais do que os seus inegáveis dotes técnicos sobressaem das suas apresentações a enorme força e pujança da sua música e da forma como aborda a bateria. Sem dó nem piedade! O papel da bateria de Blackman raras vezes se resume a estéticas meramente texturais ou pulsantes, antes se impondo como a infindável e essencial fonte de energia das apresentações. Sem pausas nem descansos.
Um solo, para Cindy Blackman, é aquela parte dos temas em que os outros instrumentos se deixam de ouvir, restando a bateria, porque ritmicamente os seus acompanhamentos são quase sempre tão elaborados, pujantes e complexos como os solos.
É raro ouvir-se jazz com tanta energia, toda ela emanada da bateria. Nisto se aproxima a música de Blackman do rock de Kravitz, também ele fortemente marcado pela batida firme e forte da percussão. Em si mesmo tal não é um defeito. Apesar de fora de moda o jazz-rock ainda tem seguidores e legou seguramente momentos notáveis à história da estética jazzística. Ainda recentemente me deliciei com a apresentação dos belgas Aka Moon, também eles cultores desta estética possante, em que a bateria de Stéphane Galland assumiu claramente as rédeas da apresentação, brilhantemente complementada pela mestria de Michel Hatzigeorgiou no baixo eléctrico e de Fabrizio Cassol no saxofone.
No entanto não posso deixar de referir que algo não funcionou em pleno nesta apresentação de Cindy Blackman. A sua sede de protagonismo roça por vezes a gratuitidade e apaga quase por completo as prestações dos restantes músicos em palco. Tal foi particularmente notório no que toca ao trabalho de George Mitchell no contrabaixo, completamente abafado pela bateria, sem direito a um único solo em todo o concerto e limitado, por vezes, a acompanhar com três ou quatro notas, as poderosas arrancadas percutivas de Blackman.
Mesmo o saxofone, instrumento poderoso e incapaz de deixar os seus créditos por mãos alheias (oiça-se Cassol num ambiente musical similar), lançado à fera Blackman, teve nas mãos de J. D. Allen uma participação discreta, buscando melodias raramente desenvolvidas face à precoce intervenção da bateria e sem um verdadeiro rasgo de criatividade que pudesse contrabalançar a presença opressiva da bateria em palco.
Foi Carlton Holmes, nos teclados, o único que ousou fazer face à poderosa Blackman, sobretudo no Fender Rhodes, pois o piano acústico pareceu desfasado deste ambiente rockeiro imprimido pela bateria. Ocasionais solos mostraram rasgos de talento do pianista que, ainda assim, poucas oportunidades teve para desenvolver os temas.
Em suma: Cindy Blackman é uma grande baterista, mas por isso mesmo não precisava de se esforçar tanto para o demonstrar em palco. Uma exibição tão esforçada dos seus reconhecidos dotes transformou a apresentação numa espécie de “one woman show”!
Da parte que me toca, teria preferido ouvir um verdadeiro quarteto de jazz…

terça-feira, 28 de outubro de 2008

A Neve do Cáucaso



Stephan Micus
Snow
ECM, 2008

Stephan Micus tem um novo disco. O décimo oitavo editado pela ECM.
Fiel ao seu estilo inconfundível de reinventar as tradições musicais, o bardo alemão desta feita rumou ao Cáucaso, prosseguindo os seus estudos no canto coral georgiano e bem assim no duduk, um maravilhoso oboé, oriundo da Arménia, capaz de nos transportar à primeira nota para os trilhos da milenar rota da seda e das estepes da Ásia Central.
Mas como é seu apanágio isso não basta. A curiosidade e mestria de Micus permitiram-lhe elevar as potencialidades sonoras do instrumento. Fazendo uso de um duduk baixo, utilizado tradicionalmente para funções meramente rítmicas, explorou belas melodias inventadas ao sabor das sensações colhidas nas suas inúmeras viagens, acompanhadas por uma cítara da sua Baviera natal (em Midnight Sea), por címbales e gongos tibetanos e harpas africanas (em Snow) ou por gongos do Pacífico e cavaquinhos andinos (em For Ceren and Halil). O resultado é conhecido, chama-se a música de Stephan Micus e é verdadeiramente única no mundo!
O uso da voz, o instrumento que Micus reputa como mais difícil e que demorou anos a incluir nas suas gravações, aparece agora pleno de força e de expressão. No tema Almond Eyes, uma inspirada fantasia baseada nos coros tradicionais búlgaros e georgianos, Micus simula um ensemble de onze vozes, todas interpretadas e arranjadas por si. O resultado é uma maravilhosa balada, acompanhada por uma guitarra tradicional de cordas de aço e por um "maung", gongo oriundo de Burma, que ora parece uma versão masculina das magistrais obras do grupo Le Mistére des Voix Bulgares, ora descobre nos solos instrumentais uma orientalidade inesperada mas profundamente bem vinda.
Em Brother Eagle, o tema que fecha o disco, são quinze as vozes clonadas de Micus que se sobrepõem num tema misterioso e perturbador e onde o duduk baixo reaparece imponente, qual saxofone nas mãos de um Jan Garbarek, também ele um conhecido cultivador destas sonoridades primordiais.
Nas mãos de Micus todos estes instrumentos tradicionais modificados ganham vida (o próprio músico afirma que os seus inúmeros instrumentos adquirem uma personalidade própria quando integram a sua colecção, deixam de ser meros objectos para constituírem uma personificação do som que produzem).
Através de um intenso e solitário trabalho de estúdio, levado a cabo pelo alemão na sua casa em Maiorca, permitem-lhe atingir um resultado final que é verdadeiramente crescente e orgânico. A música de Stephan Micus é como um organismo criado no seu laboratório de sons, a partir de fatias de sonoridades importadas das mais variadas regiões do mundo, e que, uma vez libertado em disco, se entranha e desenvolve no espírito dos ouvintes, incutindo bem estar e tranquilidade.
Uma experiência viciante e vivamente recomendada.
Vejam um vídeo elaborado a partir do tema Midnight Sea, interpretado no duduk e na cítara bávara, com fotos da Turquia e do Mar Negro da autoria de Brian Lai e que podem ser visitadas em http://www.pbase.com/brian_lai/turkey.
Para mais informações sobre este extraordinário músico alemão podem ler a minha crítica ao disco Desert Poems bem como visitar a página do músico no sítio da ECM em http://www.ecmrecords.com/Catalogue/Artists/micus_stephan.php.

Midnight Sea

domingo, 26 de outubro de 2008

Bill Frisell & Buster Keaton no CCB


Bill Frisell
2 de Novembro, 21.00h
Grande Auditório do CCB (Lisboa)

Bill Frisell nasceu em Baltimore, Maryland, em 18 de Março de 1951. Desde meados dos anos 80 que alcançou o estatuto de um dos mais reputados guitarristas de jazz da sua geração. Com um repertório eclético que vai desde o jazz ao country, passando pela música clássica, pelo blues e pelo folk, Frisell ganhou tantos seguidores quanto detractores, um pouco ao sabor da sua inspiração do momento.
É igualmente famoso pelo uso abundante de efeitos que tornam o som produzido pela sua guitarra verdadeiramente único.
Frisell foi aluno de Dale Bruning na University of Northern Colorado e mais tarde de Jim Hall no Berklee School of Music. Em 1982 foi chamado a substituir Pat Metheny na gravação do disco Psalm de Paul Motion iniciando então a sua carreira para a ECM que o levou a colaborações com os noruegueses Jan Garbarek e Arild Andersen. Mais tarde fundou em Nova Iorque o seu quarteto com Kermit Driscoll, Joey Baron e Hank Roberts e colaborou com John Zorn e novamente com Paul Motian, integrando o seu trio de que faz igualmente parte Joe Lovano.
A partir de 1988 instalou-se em Seattle e iniciou uma nova carreira como líder e compositor abraçando também repertório tão variado como o composto por Charles Ives, Aaron Copland, John Hyatt, Bob Dylan, Madona ou Ryuchy Sakamoto.
Recebeu um Grammy pelo seu trabalho Unspeakable em 2005.
No espectáculo que apresenta no Grande Auditório do CCB, Bill Frisell estará acompanhado pelo baixista Tony Scherr e pelo baterista Kenny Wollesen e interpretará composições originais que acompanham a projecção de curtas-metragens do lendário Buster Keaton, do experimentalista Bill Morrison e do cartoonista e ilustrador Jim Woodring.

Outlaws (Montreal, 2002),
com Greg Liesz, Billy Drewes, Curtis Fowlkes, Ron Miles, David Piltch e Matt Chamberlain


Londres 2004, com Djelimandy Tounkara, Greg Leisz, Jenny Scheinman e Sidiki Camara