quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Agenda da Semana no Braço de Prata


4ª feira, 10 de Setembro
22.00h – Sala Nietzsche - Longitude Zero – Jazz
Guida Costa - voz / trombone de varas
Carlos Azevedo - piano
Cicero Lee - contrabaixo
Paleka – bateria

5ª feira, 11 de Setembro
20.15h – Sala Nietzsche - BABILÓNIA REDUZIDA
Beatriz Nunes - Voz, gaitas de foles
Miguel Ribeiro - guitarra
Vítor – teclas

22.00h – Sala Visconti - Diego Armes + Samuel Uria + Jorge Cruz

22.00h – Sala Prado Coelho - Recital de guitarra por João Bastos

22.30h – Sala Nietzsche - »HAPPENNING» - JAZZ
João Paulo – piano
Luís Cunha – trombone
Júlio Resende – fender rhodes
Mário Franco – contrabaixo
João Lobo – bateria

6ª feira, 12 de Setembro
22.00h – Sala Prado Coelho - Recital de guitarra por Tiago Alexandre

22.00h – Sala Visconti - Neil Leyton + Jim Clements

Sábado, 13 de Setembro
22.00h – Sala Prado Coelho - Duas histórias que foram a mesma – JAZZ
Piano Luís Barrigas
Contrabaixo Massimo Cavalli

22.30h – Sala Nietzsche - RED Trio – Jazz
Rodrigo Pinheiro: piano
Hernâni Faustino: contrabaixo
Gabriel Ferrandini: bateria

23.30h – Sala Prado Coelho - Fados com Hélder Moutinho e convidados

00.00h – Tenda - CARLOS BARRETTO “IN LOKO”
Carlos Barretto - contrabaixo
João Moreira – trompete
Bernardo Sassetti – piano fender rhodes
Mário Delgado – guitarra eléctrica
José Salgueiro – bateria
Sebastian Scheriff – percussões

00.00h – Sala Nietzsche - Duo Terilene - Canções de Charme
Francisco Ferro – voz
Rui Correia - guitarra

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Poemas do Deserto, por Stephan Micus



Stephan Micus
Desert Poems
ECM, 2001

Stephan Micus é um caso ímpar na música contemporânea. Multi instrumentista e compositor, Micus é antes de mais um viajante, intrépido aventureiro que ousa explorar influências oriundas das mais recônditas e esquecidas regiões do planeta, na descoberta (por vezes redescoberta) de estéticas musicais e instrumentos tradicionais, quantas vezes esquecidos.
Nasceu na Alemanha em 1953, mas desde os 16 anos de idade que corre mundo em busca de novas sonoridades. Já percorreu (muitas vezes a pé…) a maioria dos países da Ásia, de África, da Europa e das Américas. Em cada um deles preocupou-se em estudar com os mestres locais um número interminável de instrumentos tradicionais, muitos deles praticamente desconhecidos no ocidente. O seu objectivo declarado é usá-los, numa mescla transcultural, na elaboração da sua música. Preferencialmente buscando novas combinações, geográfica e culturalmente improváveis.
Solitário no processo criativo, cria os seus discos através de gravações sobrepostas de sucessivas interpretações instrumentais e vocais, previamente registadas por si.
Ao longo de três décadas e 18 álbuns já gravados pela ECM, desenvolveu um som único e facilmente identificável, contemporâneo mas intemporal, construído a partir de inúmeras referências culturais e geográficas através de uma miríade de instrumentos tradicionais que, metodicamente, foi acrescentando às suas inesgotáveis capacidades interpretativas.
Desert Poems é o seu 15º álbum pela ECM, gravado na ilha espanhola de Maiorca, onde reside, entre 1997 e 2000, e lançado em 2001 pela editora alemã. Um disco onde Stephan Micus se dedicou especialmente aos instrumentos africanos. O doussn' gouni ou sinding (harpa tradicional da África ocidental), o kalimba (instrumento tradicional da Tanzânia, tocado com os polegares) e o dondon (instrumento de percussão oriundo do Gana) fazem a sua estreia em discos de Micus. Reintroduz igualmente o sarangi (instrumento de corda arqueada, oriundo da Índia) depois de um longo interregno, mas desta feita rearranjado por si e usado quase como um instrumento de percussão. Outros instrumentos utilizados neste disco são o shakuhachi (flauta de bambu japonesa), o dilruba (outro instrumento de cordas indiano), o nay (flauta tradicional egípcia), o sattar (violino tradicional do Turquemenistão chinês - Xinjiang) e o steel drum ou steelpan (instrumento de percussão originalmente oriundo de Trinidad e Tobago).

O resultado, para o músico alemão, é um disco austero e simples como os desertos que percorreu, do Gobi, Sinai, Saara, Takla Makan e Arábia. O silêncio esmagador desses espaços vazios inspirou um disco contemplativo e místico, profundamente envolvente.
Mas também a voz de Micus aparece aqui de forma profunda, como mais um dos muitos instrumentos por si utilizados. A capella ou acompanhado, Micus soa autêntico e seguro mesmo quando canta numa língua fantasista, por si inventada, como sucede em temas como “The Horses of Nizami” ou “Mikhail's Dream”. Mas surgem temas cantados em inglês e até em japonês Noh.
Surge ainda neste trabalho um arranjo instrumental de um tema coral polifónico georgiano “Shen Khar Venakhi," com mais de 750 anos de idade, o primeiro tema não original por si gravado até à data. Apesar de Micus ter estado na Geórgia, por duas vezes, a aprender duduki (um oboé tradicional da região) e a sua antiga tradição coral, optou por arranjar o tema para seis dilrubas e seis sattar.
Micus revela também uma faceta experimentalista porquanto raramente se contenta com as capacidades sonoras originais dos seus instrumentos. Quase todos eles são modificados de forma a produzirem novas sonoridades ou melhor se adaptarem ao universo criativo do compositor. Acrescenta novos buracos aos instrumentos de sopro, adiciona ou remove cordas aos de arco, altera as formas de afinação ou, simplesmente, cria novos instrumentos musicais para o que recorre frequentemente a artesãos na Alemanha, Espanha ou Japão para com ele desenvolverem as suas ideias criativas. Para ele vale tudo na busca incessante de novas possibilidades sonoras escondidas.
Micus é assim um dos melhores representantes da world music na sua essência primordial. Não apenas porque funde influências oriundas das mais distantes culturas, mas também porque claramente não se limita a respeitar as suas ricas heranças musicais, que conhece como poucos. Cria algo de novo e contemporâneo a partir desses legados.
A música de Stephan Micus tem sido escolhida por muitas companhias de dança europeias para as suas produções. E ao longo de 30 anos de carreira já apresentou centenas de concertos a solo pela Europa, Ásia e Américas.
Deixo-vos com um vídeo elaborado a partir do tema “Mikhail’s Dream” com fotos da região do Pushkar, na Índia, da autoria de Vikas Malhotra. Neste tema Micus canta na sua língua imaginária e acompanha-se a ele próprio com dois kalimba, um sinding, dois steel drum e percussão mais convencional.

domingo, 7 de setembro de 2008

Agenda Jazz 8 a 14 de Setembro de 2008



2ª feira, 8 de Setembro
19.30h - Hotel Le Meridien Dona Filipa (Loulé) - Orquestra de Jazz de Lagos

3ª feira, 9 de Setembro
22.30h – Ondajazz (Lisboa) - Hipster 6tet

4ª feira, 10 de Setembro
21.30h – Auditório Jazz ao Norte (Matosinhos) – Samuel Quinto
22.00h – Ondajazz (Lisboa) - Thierry Riou, Carlos Massa & Milton Batera
22.00h – HotFive (Porto) - Jam Session Porto AllStars
22.00h – Centro Cultural O Século (Lisboa) - RODRIGO AMADO TRIO

5ª feira, 11 de Setembro
21.30h – Auditório Municipal (Albufeira) – Martírio Trio
22.00h – Cafetaria Quadrante CCB (Lisboa) - Jason Stein's Locksmith Isidore
22.00h – Centro Cultural O Século (Lisboa) - RODRIGO AMADO TRIO
22.00h – Hot Club (Lisboa) - André Matos «Rosa Shock»
23.00h – Ondajazz (Lisboa) – Miguel Braga Convida (Jorge Pardo, Carlos Benavent, António Serrano, Carlos Carli, Fernando Girão e André Sarbib)
23.45h – Hot Club (Lisboa) - Afonso Pais Trio «Subsequências»

6ª feira, 12 de Setembro
21.30h – Jazz ao Norte (Matosinhos) - Sofia Ribeiro & Marc Demuth
21.30h – Auditório Municipal (Albufeira) - Transatlantica All Stars
22.00h – Centro Cultural o Século (Lisboa) - BARTOLINSKY ENSEMBLE
22.00h – Hot Club (Lisboa) - Jason Stein’s Locksmith Isidore
23.30h – Ondajazz (Lisboa) – Zé Maria
23.45h – Hot Club (Lisboa) – Happenning (João Paulo & Carlos Bica)

Sábado, 13 de Setembro
17.00h – Fnac Santa Catarina (Porto) - Murdering Tripping Blues
21.30h – Auditório Municipal (Albufeira) - The Bad Plus
22.00h – Casa da Música (Porto) – Al di Meola
22.00h – HotFive (Porto) - Minneman Blues Band
22.00h – Centro Cultural o Século (Lisboa) - LÍRIO CÃO
22.00h – Hot Club (Lisboa) - José Peixoto «El Fad»
23.00h – Hot Club (Lisboa) - Quinteto de Pedro Moreira
23.00h – Elevador de Santa Justa (Lisboa) - Mariana Norton, André Carvalho, André Santos, Daniel Vieira, Miguel Moreira
23.30h – Ondajazz (Lisboa) - João Paulo Trio
00.00h – Fábrica Braço de Prata (Lisboa) - Carlos Barretto «In Loko»
00.30h – Hot Club (Lisboa) - Tetterapadequ (João Lobo, Gonçalo Almeida, Daniele Martini, Giovanni Di Domenico)

Domingo, 14 de Setembro

17.00h – Jardim da Estrela (Lisboa) - Quarteto DJ Ride Live Act
21.30h – Teatro Aveirense (Aveiro) – Al di Meola
22.00h – HotFive (Porto) - Alberto Índio & António Mão de Ferro

Festival de Jazz de Albufeira



Durante três noites consecutivas o Jazz vai soar em Albufeira.
O Festival que decorre no Auditório Municipal, recebe talentos nacionais e internacionais, bem como novos valores.
Um programa vasto em que o Jazz vai interagir generosamente com os mais variados estilos musicais, desde o estilo latino-americano, passando pelo pop-rock. Espectáculos com entrada gratuita garantem noites quentes em casa cheia.

Programa:

11 de Setembro (Quinta-feira)
Martirio

12 de Setembro (Sexta-feira)
Transa Atlântica

13 de Setembro (Sábado)
The Bad Plus

O Regresso do Seixal Jazz


O Festival Internacional Seixal Jazz está de volta ao palco do Fórum Cultural do Seixal e aos Antigos Refeitórios da Mundet. O festival abre as portas, a partir do dia 17 de Outubro, com o Seixal Jazz Clube, um espaço de animação e convívio com actuações de músicos nacionais e estrangeiros, exposições e um serviço de bar. O cartaz principal, que decorre no Auditório do Fórum Cultural do Seixal, tem inicio no dia 29 de Outubro e prolonga-se até ao dia 1 de Novembro, com 2 actuações por dia.

Além dos concertos, estão previstas Exposições, a Feira do Disco e do Jazz, Workshops e o Jazz Vai à Escola, um projecto pedagógico de divulgação do jazz com uma componente prática e de experimentação.

O Seixal Jazz, já considerado um dos melhores festivais internacionais, trouxe aos palcos do Seixal nomes como Laurent Filipe, Tim Hagans, Billy Kilson, Steve Coleman, Benny Golson, Kenny Garrett, Joe Lovano, Ravi Coltrane, Chico Freeman, Chick Corea, Dave Holland, Dave Douglas e Brad Mehldau, entre muitos outros.

O programa anunciado é o seguinte:

Concertos no Auditório Municipal do Forum Cultural do Seixal
Bilhete: 15€

29 de Outubro - quarta-feira
21.30 e 23.30 horas
Dave Holland Quintet
Chris Potter (saxofone tenor e soprano)
Robin Eubanks (trombone)
Steve Nelson (vibrafone)
Dave Holland (contrabaixo)
Nate Smith (bateria)

30 de Outubro - quinta-feira
21.30 e 23.30 horas
Cindy Blackman Quartet
J. D. Allen (saxofone tenor)
Carlton Holmes (piano e Fender Rhodes)
George Mitchell (contrabaixo)
Cindy Blackman (bateria)

31 de Outubro - sexta-feira
21.30 e 23.30 horas
The Leaders
Bobby Watson (saxofone alto)
Chico Freeman (saxofones tenor e soprano)
Ray Anderson (trombone)
Fred Harris (piano)
Buster Williams (contrabaixo)
Michael Baker (bateria)

1 de Novembro – sábado
21.30 e 23.30 horas
Guy Barker Jazz Orchestra
Guy Barker (trompete, direcção)
Nathan Gray (trompete)
Tom Rees Roberts (trompete e fliscorne)
Byron Wallen (trompete e fliscorne)
Barnaby Dickison (trombone)
Alistair White (trombone)
Mark Frost (trombone baixo)
Rosario Giuliani (saxofones alto e soprano)
Graeme Blevins (saxofone tenor, clarinete, flauta)
Per “Texas” Johansson (saxofone tenor, clarinete contrabaixo, flauta, clarinete)
Phil Todd (saxofone barítono, tubax, flautas, piccolo)
Jim Watson (piano, Fender Rhodes, orgão Hammond B3)
Phil Donkin (contrabaixo)
Ralph Salmins (bateria, percussão)

Concertos no Seixal Jazz Club
Entrada Livre

17 e 18 de Outubro - sexta-feira e sábado
23 e 24 horas
Marta Hugon Quarteto + convidado
Marta Hugon (voz)
Filipe Melo (piano)
Bernardo Moreira (contrabaixo)
André Sousa Machado (bateria)

23 de Outubro - quinta-feira
23 e 24 horas
Escola Moderna de Jazz do Seixal

24 e 25 de Outubro - sexta-feira e sábado
23 e 24 horas
RIDD Quartet
Jeff Davis (bateria)
Kris Davis (piano)
Jon Irabagon (saxofones)
Reuben Radding (contrabaixo)

29 de Outubro - quarta-feira
23 e 24 horas
The Electrics
Sture Ericson (saxofone tenor)
Axel Dörner (trompete)
Ingebrigt Håker Flaten (contrabaixo)
Raymond Strid (bateria)

30 de Outubro - quinta-feira
23 e 24 horas
BRP (Inglaterra)
Pedro Velasco (guitarra)
Rob Pennel (bateria)
Ben Bastin (contrabaixo)

31 de Outubro e 1 de Novembro - sexta-feira e sábado
23 e 24 horas
The Fringe
George Garzone (saxophone)
John Lockwood (contrabaixo)
Bob Gulloti (bateria)

Sangam no Museu do Oriente



SANGAM
CHARLES LLOYD COM ZAKIR HUSSEIN E ERIC HARLAND

6 de Setembro de 2008, 21.30h
Auditório do Museu do Oriente, Lisboa
Co-produção: Fundação Oriente/Sons em Trânsito
*****

Foi um espectáculo invulgar aquele que tive o privilégio de assistir ontem à noite no auditório do Museu do Oriente. Desde logo porque não é todos os dias que podemos presenciar em palco uma lenda viva como é Charles Lloyd, para mais acompanhado por um dos mais extraordinários músicos da sua geração, o baterista Eric Harland, e pelo musicólogo e virtuoso da tabla, o indiano Zakir Hussein. Mas também porque não é vulgar conjugar o virtuosismo do saxofone da Lloyd com apenas dois instrumentos de percussão, a bateria e a exótica tabla, um instrumento fantástico que consegue, de forma absolutamente única, assumir papéis rítmicos e melódicos na apresentação.
Sangam é um projecto marcadamente pessoal destes grandiosos músicos. Intimista e experimental, transpõe para o palco a essência da colaboração musical, da troca de experiências e de culturas, entre os três músicos envolvidos. Refunda o oriente e o ocidente musicais e mostra-nos um Charles Lloyd que, aos 70 anos de idade, surge não só no pleno das suas enormes capacidades interpretativas, mas também sedento de novas experiências, capaz de mergulhar com pertinência e perspicácia na cultura musical indiana e conjugá-la com a sua ampla bagagem musical adquirida pela vasta experiência de vida e invejável carreira.
Mas não se pense que é um projecto de Lloyd. Longe disso. Cada um dos intervenientes mostrou-se igualmente envolvido e protagonista deste projecto, como o demonstra a facilidade com que se revezaram nos instrumentos e papéis, por vezes roçando quase o insólito (na verdade, não estava a espera de ouvir Eric Harland a cantar e tocar piano, e ainda menos de ver Charles Lloyd sentar-se na bateria e ocupar o lugar de Harland…).
Aqui não há modas, não há world music ou world jazz… há apenas música! E três homens, exímios intérpretes e criadores, a experimentarem sons e instrumentos, pelo puro prazer de criar, de sentir a música, de a fazer confluir, de origens distantes e diversas, num único projecto multicultural unido pela paixão que todos manifestamente demonstram por ela. E levando-nos consigo nessa extraordinária viagem.
Lloyd alternou entre o piano, o saxofone, o clarinete, a flauta e até a bateria, sem esquecer a voz (num dos temas surgiu declamando poesia ao piano, sobre um fundo de misticismo indiano protagonizado pelas vozes de Hussein e Harland e a tabla do indiano). Harland deslumbrou na bateria, demonstrando um entendimento extraordinário com as tablas de Hussein, num constante desafio ao ouvinte, com momentos sublimes, e surpreendeu mostrando-se loquaz no piano (que aborda como um instrumento de percussão – que é! – incutindo pulsações e cadências contagiantes que serviram na perfeição o misticismo da apresentação). Quanto a Hussein demonstrou um talento invulgar no seu instrumento e uma voz notável, responsável por uma boa parte da magia deste concerto inesquecível.
A culminar a noite, já num segundo encore exigido pelo público entusiástico, Charles Lloyd brindou-nos com uma interpretação a solo de Rabo de Nube, do cubano Sílvio Rodriguez, plena de entrega e virtuosismo.
Um espectáculo deslumbrante e memorável.
Na tentativa de vos transmitir um pouco desta experiência única, deixo-vos dois vídeos de apresentação do projecto Sangam que encontrei no Youtube, pela voz do mestre Charles Lloyd.


Avanti! Jazz e Revolução



Giovanni Mirabassi
Avanti!
Stretch Records 2000

Pegar num repertório constituído exclusivamente por hinos e canções revolucionárias e trabalhá-las sozinho ao piano, numa abordagem criativa e improvisada, parece, à primeira vista, uma missão quase impossível. Não pela falta de valia musical do material mas antes pela forte carga ideológica do mesmo, que impede quase em absoluto que o ouvinte (e o próprio intérprete) se abstraia do seu contexto histórico e político e se entregue, em exclusivo, aos seus atributos musicais.
No entanto foi esse o desígnio assumido pelo pianista italiano Giovanni Mirabassi no álbum Avanti! editado em 2000 pela Stretch Records. Temas emblemáticos da guerra de Espanha, da guerra de secessão norte-americana, da revolução cubana ou da revolução russa cruzam-se numa abordagem que, longe de incitar à luta de classes, apela antes à vida e à liberdade, com uma sensibilidade que lhes incute algo de novo, embora respeitando a sua identidade e historicidade.
Mirabassi é um auto-didacta, nascido em Perugia em 1970 mas radicado em França desde 1992. Sem formação académica, aprendeu piano a ouvir discos de Bud Powell, Art Tatum e Oscar Peterson, mas a sua principal influência provém, sem dúvida, do seu compatriota Enrico Pieranunzi. É em França, no entanto, que edita o seu primeiro disco em 1996, Dyade - En bonne et due forme, com Pierre-Stéphane Michel no contrabaixo e Flávio Boltro no trompete, ano em que recebe igualmente o prémio de melhor solista no Concurso Internacional de Jazz de Avinhão, presidido por Daniel Humair.
Avanti! é o seu primeiro projecto a solo, algo que, intimamente, amadurecia há vários anos aguardando uma oportunidade de concretização. Valeu-lhe o Django de Ouro, para o melhor jovem talento e a Victoires du Jazz em 2002. E mereceu-lhe igualmente a consagração entre o público e a crítica, que enaltece a forma ousada como este jovem pianista aborda um repertório constituído por canções revolucionárias e patrióticas, de resistência e luta, de forma criativa, com um típico lirismo italiano, mas profundamente respeitador da melodia e do seu significado histórico.
Segundo o pianista foi o fascínio pelo imaginário colectivo e pela capacidade destas músicas se integrarem na memória de cada um de nós, que o atraiu para o projecto. Cada canção é uma história, um grito, uma emoção intensa que Mirabassi reescreve de modo maduro e refinado, por vezes mesmo surpreendente. O seu improviso incute sangue novo aos ideais protagonizados por estes temas porquanto deixa cantar a melodia, permite-lhe florescer e libertar o seu significado mais profundo, mais humano.
Uma obra maior e obrigatória, que consagrou definitivamente este excelente pianista italiano entre os músicos mais influentes da sua geração, no jazz europeu.
A ilustrar este belo trabalho deixo dois vídeos: o primeiro com o tema El Paso del Ebro, canção popular republicana da Guerra Civil de Espanha (também conhecida por Ay, Carmela!) evocativa da batalha do Ebro, a maior daquele confronto, que teve lugar no vale do Ebro, nas províncias de Tarragona e Saragoça, entre os meses de Julho e Setembro de 1938, acompanhado de fotos do exército republicano na Guerra Civil de Espanha; o segundo é um tema popular russo denominado Plaine, Oh Ma Plaine (POLYUSHKA POLYE), tema emblemático da revolução russa e popularizado pelo Coro do Exército Vermelho, o qual aparece acompanhado de fotos dos Gulags de Stalin, numa evocação das vítimas do totalitarismo estalinista.
Junto também dois videos de uma apresentação de Giovanni Mirabassi ao vivo, com os temas "El Pueblo Unido Jamas Sera Vencido" (da autoria de Sergio Ortega e que constitui um símbolo da luta chilena contra a ditadura de Pinochet) e "Le Chant Des Partisans" (da autoria de Anna Marly, hino não-oficial francês e símbolo da França livre, durante a ocupação alemã na 2ª guerra mundial), também incluídos no álbum Avanti!.







quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Cabo Verde, por Bernardo Sassetti



Nascido em Lisboa, em 1970, Bernardo Sassetti iniciou os estudos de piano clássico aos nove anos de idade, com a professora Maria Fernanda Costa e, mais tarde, com o professor António Menéres Barbosa, tendo frequentado também a Academia dos Amadores de Música. Dedicou-se ao Jazz, estudando com Zé Eduardo, Horace Parlan e Sir Roland Hanna. Em 1987 começa a sua carreira profissional, em concertos e clubes locais, com o quarteto de Carlos Martins e o Moreiras Jazztet; participa em inúmeros festivais com músicos tais como Al Grey, John Stubblefield, Frank Lacy e Andy Sheppard. Desde então, nos primeiros 15 anos de carreira, apresenta-se por todo o mundo ao lado de Art Farmer, Kenny Wheeler, Freddie Hubbard, Paquito D´Rivera, Benny Golson, Curtis Fuller, Eddie Henderson, Charles McPherson, Steve Nelson, integrado na United Nations Orchestra e no quinteto de Guy Barker com o qual gravou o CD "Into the blue" (Verve), nomeado para os Mercury Awards 95- Ten albuns of the year. Em Novembro de 1997, também com Guy Barker, gravou "What Love is", acompanhado pela London Philarmonic Orchestra e tendo como convidado especial o cantor Sting. O seu primeiro trabalho discográfico como líder, Salsetti (Groove/Movieplay), foi gravado em Abril de 1994 com a participação de Paquito D’Rivera.
Dedica-se regularmente à música para cinema, tendo realizado vários trabalhos nos quatro últimos anos, de entre os quais se destaca a sua participação no filme do realizador Anthony Minguella - "The Talented Mr. Ripley" (Paramount/Miramax). Para este projecto gravou "My Funny Valentine" com o actor Matt Damon, entre outros temas. Compôs igualmente, em parceria com o trompetista Guy Barker, uma série de temas para serem apresentados na Premiére deste filme realizada em Los Angeles, Nova Iorque, Chicago, Berlim, Paris, Londres e Roma.
Como concertista, no tempo presente, apresenta-se em piano solo, em trio com Carlos Barretto e Alexandre Frazão ou em duo com o pianista Mário Laginha, com quem gravou os CD's "Mário Laginha/Bernardo Sassetti" e "Grândolas" (uma homenagem a Zeca Afonso e aos 30 anos do 25 de Abril).
Bernardo Sassetti, bisneto do quarto presidente da república portuguesa, Sidónio Pais (o presidente-rei, assassinado na estação do Rossio, em Lisboa, em 14 de Dezembro de 1918), é hoje, indiscutivelmente, um dos mais talentosos pianistas nacionais, compondo e improvisando solidamente ancorado nos vastos conhecimentos que possui de piano clássico. Sassetti é o mestre dos silêncios. Para si a música nasce do silêncio, o vazio como princípio de qualquer representação artística. Pioneiro também da multidisciplinaridade no jazz nacional (ou não fosse Bernardo Sassetti um amante inveterado da fotografia), surpreendeu o seu público e a crítica com o trabalho Unreal: Sidewalk Cartoon, que envolveu mais de oitenta pessoas nos processos de criação e edição de um CD, um livro, um filme e um espectáculo, de cuja apresentação no São Luiz, em Dezembro de 2006, dei nota nas presentes páginas.
Razões mais do que suficientes para vos deixar com um vídeo, elaborado a partir do tema Petit Pays, escrito por Nando da Cruz e com fotos de Cabo Verde, da autoria de Louk Numan, gravado por Sassetti, a solo, para o seu disco Livre (CleanFeed, 2004). O silêncio de Sassetti aplicado à nostalgia de Cabo Verde. A meu ver um cruzamento genial.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Ondajazz está encerrado...



"Carta Aberta

Devemos uma explicação a todos os que nos apoiaram até hoje, a todos os que acreditam em nós e queremos denunciar a injustiça de que estamos a ser vítimas...

Os estabelecimentos de Restauração e Bebidas em Lisboa só podem funcionar, segundo a lei, com uma Licença de Utilização emitida pela Câmara Municipal de Lisboa.
Todos os estabelecimentos fazem esse pedido. E todos ficam a espera “ad eternae”...
A Câmara Municipal de Lisboa sabe.
Por isso, também fecha os olhos quando os estabelecimentos estão em funcionamento apenas com o pedido de licenciamento...

Ondajazz fez o seu em Agosto de 2004. Hoje, continua a espera...
Há UMA ÚNICA pessoa que, vivendo na proximidade do Ondajazz e por razões que desconhecemos, resolveu fazer guerra contra tudo e todos que estão a sua volta.
Passámos a ser alvo do seu ódio sem nunca percebermos a razão. Resolveu multiplicar as queixas contra nós até chegar à Provedoria da Justiça que fez toda a pressão junto dos organismos competentes para fechar o nosso estabelecimento. Por causa das queixas... De UMA pessoa. Mas o que nos obriga a fechar, é a falta de Licença de Utilização!

De salientar que, pelo facto de não termos Licença, também não temos o direito de provar que as queixas não têm fundamento.
Consideramos o sistema responsável de um crime contra um espaço que vive no centro de Lisboa e que deu, até hoje, mais de 750 concertos.
Contamos com a extrema simpatia de todos os que vivem e trabalham junto do Ondajazz e que já testemunharam que o nosso espaço não incomoda ninguém. Contamos também com os esforços da Câmara Municipal de Lisboa para acelerar o mais possível o processo para remediar uma situação causada por ela.
Tentaremos provar junto da Provedoria da Justiça que a queixa não tem fundamento.
O Ondajazz abriu, acreditando na partilha das emoções, das diferenças e da criatividade.
A administração fechou o Ondajazz com indiferença e inactividade.

O Ondajazz tem sido um espaço com uma programação musical de qualidade, tendo-se tornado uma referência incontornável do Jazz e da Música do Mundo da nossa cidade, sempre com um excelente ambiente criado pelas pessoas que aqui vêm, pela música, pela onda que passa...

Pedimos a todos os que apoiam o nosso projecto, a todos os que acreditam em nós e que entendem que um espaço como o Ondajazz faz falta à Cidade de Lisboa, que nos enviem um email onde, à sua maneira, dêem o seu testemunho, de forma a juntar a um manifesto que queremos entregar a todos os organismos susceptíveis de intervir por nós.

Agradecemos a todos o apoio que nos têm dado nestes dias difíceis."



Quero aqui deixar o meu apoio ao Ondajazz, neste momento dificil da sua existência (que estou em crer se prolongará ainda por muitos anos).
Na verdade, não estivesse eu habituado a viver com as incoerências da nossa administração pública, e não hesitaria em classificar de surrealista a situação que, aparentemente, este clube referencial lisboeta está presentemente a viver.
Num bairro como Alfama, destinado por definição ao Turismo e a funcionar como mostruário da noite e cultura lisboetas, esperar quatro anos por uma licença de utilização é manifestamente inadmissível (já o seria em qualquer outro espaço, mas em Alfama a demora torna-se por demais gritante).
Durante estes anos de funcionamento do Ondajazz visitei-o apenas uma mão cheia de ocasiões, ainda assim as suficientes para me aperceber da seriedade e mais-valia do projecto. Um espaço exemplar, onde com simpatia e profissionalismo se serve a música, aqueles que dela vivem ou gostam e os muitos visitantes que, atraídos pela magia do mais típico bairro lisboeta, se surpreendem pelo bom gosto desse espaço, que une o tradicional ao vanguardista, o típico ao experimental.
Sempre constatei o civismo e a urbanidade dos que nele trabalham e o frequentam, pautando-se como um espaço exemplar de convívio para os muitos para quem a música é um modo de vida.
Sentir-se incomodado pela presença do Ondajazz em Alfama, convivendo paredes meias com casas de fado (muitas delas com espectáculos quase diários nas esplanadas, sem qualquer controle acústico), bares e tabernas, santos populares e despedidas de solteiro, só pode constituir uma manifestação inequívoca de má fé. Ou então da defesa de inconfessáveis interesses.
Da parte que me toca, deixo aqui o meu apoio inequívoco para os efeitos que julgarem pertinentes, apelando aos muitos outros como eu, que o exprimam de igual forma.

Deixo o contacto para o efeito:


corinne@ondajazz.com

Um Abraço solidário

Ricardo Ramalho

Agenda Braço de Prata



4ª feira, 3 de Setembro

22.30h - Sala Nietzsche - Pocket Trio - Massimo Cavalli e convidados

5ª feira, 4 de Setembro

22.00h - Sala Prado Coelho - Velez - Bossa Nova
Velez é uma banda de músicas originais dentro das novas tendências estéticas da Bossa Nova. Formada em Lisboa, conta já com dois CDs editados e distribuídos por vários países Europeus e Asiáticos.

O grupo apresenta-se com 6 elementos em palco, ritmo e sensibilidade, resultando num som “cool” e “swingado” fazendo a combinação perfeita com a voz aveludada da cantora.

Teresa Velez - Voz
Michele – Piano
Markus Britto – Baixo
Henry de Sousa – Bateria
João Cabeleira – Guitarra
Ruca Rebordão – Percussão

23.00h - Sala Nietzsche - Aurora – música inspirada no filme Aurora de F.W.Murnau
Bruno Margalho (sax alto)
Óscar Graça (piano)
Nuno Costa (guitarra)
Pedro Viana (bateria)

6ª feira, 5 de Setembro

22.30h - Sala Prado Coelho - Múcio Sá (guitarra) e Alexandre Barriga (percussão)

22.30h - Sala Nietzsche - Júlio Resende e convidados - Jazz

00.00h - Sala Nietzsche - Soaked Lamb
Mariana Lima (voz)
Ukelele (guitarras, harmónica)
Afonso Cruz (banjo)
Gito (contrabaixo)
Vasco Condessa (piano e orgão)
Tiago Albuquerque (Sax alto, clarinete, guitarra)
Miguel Lima (percussão)

00.00h - Sala Prado Coelho - Free Fucking Notes
Marta Plantier apresenta um espectáculo em que o livre pensamento e a vertigem da expressão plástica dão mote para a deriva da voz e do piano. Marta Plantier (voz) e Luis Barrigas (piano)

Sábado, 6 de Setembro

22.00h - Sala Prado Coelho - Dizcantus
Com influências vindas do Jazz e do Clássico, apresentam um espectáculo cujas composições e improvisos dão ao público a possibilidade de "num imaginário sonoro" viajar nos locais onde a língua portuguesa e as vivências de um povo se partilham com outras gentes.

Carlos Sanches(guitarras acústicas e portuguesa)
Leopoldo Gouveia (Guitarra clássica)
Joaquim Correia (Baixo acústico)
Manu Teixeira Percursões.

23.00h - Sala Visconti - Marco Alonso
Marco Alonso é um guitarrista de flamenco moderno, que editou, compôs e produziu o seu primeiro trabalho discográfico, intitulado por”tu aroma, tu sabor”.Um trabalho recheado de virtuosismo, excelentes composições e um toque jazzístico.
Marco Alonso é um criador que procura mostrar ao público, um flamenco mais audível, mais melódico e mais contemporâneo, sem retirar os princípios básicos da tradição Andaluza.
As suas actuações ao vivo contam com a participação do seu grupo (baixo eléctrico, percussão,2ª guitarra, alaúde e harmónica).
Toda esta elegância musical e técnica, só foram possíveis graças ao grandes mestres com quem estudou: Nilton Esteves, Fernando Neves, Jorge Chaínho, o grande Maesto de la guitarra flamenca Manolo Sanlúcar, José António Rodriguez, Paco Serrano e Manolo Franco.

23.30h - Sala Nietzsche - Nicole Eitner