sábado, 9 de agosto de 2008

Vocalizando Ellington



Lorraine Feather
Such Sweet Thunder
Sanctuary 2003

Vocalese é um termo que designa, nos meios jazzísticos, o processo de criação de letras para temas de jazz instrumentais. A prática terá sido originalmente utilizada por Eddie Jefferson e King Pleasure quando, em 1952, juntaram uma letra nova ao solo de saxofone de James Moody em “I’m in the Mood For Love”, no seu disco “Moody’s Mood For Love”. Porém o grande ícone do género, no início dos anos 60, foi o trio Lambert, Hendricks and Ross, com elaborados arranjos vocais que conseguiam reproduzir uma secção inteira de metais.

Lorraine Feather retomou o género e homenageou, com letras da sua autoria, a Duke Ellington Orchestra, neste belíssimo trabalho denominado Such Sweet Thunder (Sanctuary, 2003), título de um disco do Duke, de 1957. Perfeitamente integrado no espírito dos temas, este trabalho conta com uma respeitável orquestra a acompanhar a voz de Feather e excelentes arranjos de Bill Elliott, Shelly Berg, Mike Lang e Terry Harrington. Antes dele, em 2001 e também pela editora Sanctuary, tinha já homenageado o pianista Fats Waller vocalizando as suas composições no álbum New York City Drag.

Com formação teatral, Lorraine Feather tentou primeiro a sua sorte no teatro nova-iorquino. Apesar de ter participado em várias produções, designadamente em Jesus Christ Superstar, a experiência revela-se pouco satisfatória e Lorraine dedica-se ao jazz revivalista, cantando para várias orquestras de Nova Iorque e em clubes de Los Angeles. Chega mesmo a gravar um disco de standards para a Concord. É então convidada pelo produtor Richard Perry a integrar o trio Full Swing, com Charlotte Crosley e Steve March Tormé (o filho de Mel Tormé), o qual pretendia recuperar o estilo vocal dos anos 40, para audiências dos anos 80 e com o qual grava três discos. Lorraine revela também nesta fase o seu talento como escritora de canções.

Após a separação do trio em 1990 Lorraine dedica-se exclusivamente a escrever canções, para artistas como Patti Austin e Kenny Rankin, para filmes, programas de televisão (já foi sete vezes nomeada para o Emmy) e para as cerimónias de abertura e encerramento dos jogos olímpicos de Atlanta, em 1996.

Foi a morte do pai, o compositor Leonard Feather, e a redescoberta da sua colecção de discos de jazz (doada à Universidade de Idaho) que fez Lorraine descobrir a obra de Fats Waller e pôr-se a escrever letras para os seus solos. O resultado foi o disco New York City Drag e o renascimento da sua carreira como cantora de jazz.

Deixo-vos com o tema The 101, vocalização do tema instrumental Suburbanite, da Duke Ellington Orchestra, com letra da autoria de Lorraine Feather e arranjo de Bill Elliott, extraído do disco Such Sweet Thunder.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Amor de Terceiro Mundo



Third World Love
New Blues
Anzic Records 2007

Third World Love é um quarteto de jazz israelo-norte americano. Formado em Barcelona, em 2003 e por iniciativa do baterista Daniel Freedman, para uma jam session que revelou, quase instantaneamente, as enormes sintonias dos músicos envolvidos.
É composto pelos israelitas Avishai Cohen no trompete (não confundir com o homónimo contrabaixista e pianista, que fez parte do sexteto Origin, de Chick Corea), Yonatan Avishai no piano, Omer Avital no contrabaixo e pelo baterista norte-americano Daniel Freedman.
Quatro anos depois, e outros tantos discos (Third World Love Songs, Avanim, Sketch of Tel Aviv), surge este New Blues, gravado em 2007 e editado, já em 2008, pela Anzic Records. Um disco brilhante onde, sob o cada vez mais abrangente chapéu do jazz, se fundem influências diversas: africanas, latino-americanas, flamencas, do médio-oriente e até uma valsa musette francesa.
No seguimento de outros trabalhos de músicos israelitas (como o já citado contrabaixista Avishai Cohen) este New Blues exprime, através do jazz, as raízes musicais judaicas do quarteto, na decomposição das suas várias influências e componentes, africanas, latinas e norte-americanas. O resultado é um verdadeiro mosaico onde se encaixam jazz, blues, melodias e ritmos sefarditas e klezmer, flamenco, pasodobles, sambas e rumbas sem esquecer os ritmos africanos. Um desafio permanente ao ouvinte.
Uma obra omnívora na absorção das inúmeras influências recolhidas pelo grupo, mas ainda assim de uma invejável coerência.
Esta enorme riqueza musical, brilhantemente composta e interpretada pelos quatro músicos envolvidos (a excepção é o tema So, de Duke Ellington, que fecha o álbum), é reforçada por um apurado sentido melódico que nunca se revela redutor ou simplista, e por uma invejável secção rítmica que imprime uma pulsação contagiante à obra, tornando-a sedutora, alegre e acessível a um alargado leque de públicos.
Third World Love convida-nos a uma viagem global e poética pelos ritmos, canções, danças e celebrações da cultura mediterrânica.
Um trabalho maduro e consistente deste quarteto que, progressivamente, se vai afirmando como um nome maior do jazz internacional actual.
Vivamente recomendado.



Deixo-vos com o tema La Camarona, um original de Daniel Freedman que, nas palavras do compositor, corresponde a um cruzamento onírico da música da brasileira Clara Nunes e de cantor de flamenco, Cameron de La Isla. As fotos de Espanha são da autoria de Chris Spracklen.

Agenda Braço de Prata



4ª feira, 6 de Agosto

22.30h - Sala Prado Coelho
JB ensemble

Maria José Leal- voz
Telmo Campos-saxofones
Filipe Duraes- trompetes
Nuno Salvado -acordeão
João Roque- guitarra
Diana Almeida- piano
Antonio Quintino-contrabaixo
Paulo Monteiro-bateria
Direcção e arranjos - Pedro Madaleno

23.00h - Sala Nietzsche
Francisco Pais Quartet Tour 2008

Francisco Pais - guitarra
Josefine Lindstrand - voz
Demian Cabaud - contrabaixo
Bruno Pedroso – bateria

5ª feira, 7 de Agosto

22.30h - Sala Prado Coelho
Miguel Leiria Pereira + Jean Michel Micallef + Teppe Watanabe

23.00h - Sala Nietzsche
La Chanson Noire

6ª feira, 8 de Agosto

22.00h - Sala Prado Coelho
Free Fucking Notes
Marta Plantier (voz) e Luís Barrigas (piano)

22.30h - Sala Nietzsche
Júlio Resende Trio

23.00h - Sala Visconti
Playground
Nuno Biscaia, Alcides Miranda, Paulo Muiños, Isaac Achega

Sábado, 9 de Agosto

22.00h - Sala Prado Coelho
Nicole Eitner

22.00h - Sala Nietzsche
Longitude Zero – Jazz
Guida Costa - voz / trombone de varas
Carlos Azevedo - piano
Cicero Lee - contrabaixo
Paleka – bateria

23.30h - Sala Prado Coelho
Fados, com Hélder Moutinho e convidados

00.00h - Sala Visconti
o erro!
João Palma (guitarra, voz) e João Pedro Almeida (guitarra)

00.00h - Sala Nietzsche
Quinteto Nuno Costa - Jazz

terça-feira, 5 de agosto de 2008

O Regresso de Mr. Gone



Wayne Shorter é um dos mais importantes e influentes saxofonistas e compositores norte-americanos das últimas décadas. Nascido em 1933 em Newark, New Jersey, frequentou em jovem a Newark Arts High School antes de ingressar, no início dos anos 50, na Universidade de Nova Iorque. Em 1956 foi para o exército, onde tocou com Horace Silver e, dois anos depois, já terminado o serviço militar, com Maynard Ferguson. Foi nesta altura que lhe foi atribuída a alcunha de Mr. Gone, que haveria, anos mais tarde, de servir de título para um álbum dos Weather Report. Em 1959 juntou-se aos Jazz Messangers de Art Blakey, onde permaneceu durante cinco anos, terminando como director musical do grupo. Em 1964 deixou os Jazz Messangers e juntou-se ao quinteto de Miles Davis, onde tocavam Herbie Hancock, Ron Carter e Tony Williams, para muitos o melhor quinteto de sempre do mítico trompetista. Foi durante os anos que tocou com Davis que Shorter compôs temas que viriam a alcançar o estatuto de standards, como Prince of Darkness, ESP, Footprints, Sanctuary ou Nefertiti. Esta colaboração duraria até 1970, mesmo depois do fim do quinteto, tendo Shorter participado em ambos os projectos de fusão gravados por Davis em 1969, In a Silent Way e Bitches Brew.
Paralelamente aos seus trabalhos com Miles Davis, Wayne Shorter gravou muito para a Blue Note com inúmeras formações, incluindo músicos como Freddie Hubbard, Lee Morgan, McCoy Tyner, Reggie Workman, Elvin Jones, Curtis Fuller, James Spaulding ou Joe Chambers, entre outros.
Em 1971, juntamente com o teclista Joe Zawinul, fundou os Weather Report onde tocavam igualmente o contrabaixista Miroslav Vitous (após a saída deste em 1973 o baixo foi entregue a Jaco Pastorius), o percussionista Airto Moreira e o baterista Alphonse Mouzon, um dos mais aclamados e influentes grupos de fusão dos anos 70. Mesmo durante os atarefados anos dos Weather Report, Wayne Shorter continuou a encontrar tempo para se dedicar a projectos pessoais e de colaboração com outros músicos, como Herbie Hancock, Milton Nascimento, Joni Mitchell ou Steely Dan.
Em 1986 participou no filme de culto de Bertrand Tavernier, Round Midnight, com Dexter Gordon no papel principal.
Mais recentemente Wayne Shorter colaborou com Carlos Santana em 1988, com os seus ex-colegas do Quinteto de Miles Davis num álbum de homenagem ao trompetista, logo após a sua morte, e ainda com Joni Mitchell. Em 1995 gravou High Life pela Verve, disco co-produzido por Marcus Miller.
Uma tragédia pessoal (a morte da mulher Ana Maria num acidente de aviação em 1996) afastou-o vários anos dos estúdios, abraçando Shorter a religião budista. Mas a partir de 2002 voltámos a assistir ao lançamento regular de discos de Wayne Shorter, primeiro Footprints Live em 2002, depois Alegria em 2003 e finalmente, em 2005, Beyond the Sound Barrier.
Shorter foi já galardoado com nove Grammys. Recebeu ainda o NEA Jazz Masters em 1998 e foi doutorado honoris causa pelo Berklee College of Music em 1999.



Wayne Shorter
Alegría
Verve 2003

Deixo-vos com um memorável dueto de Shorter com Herbie Hancock, gravado em Paris em Janeiro de 2004. O tema é Meridianne, de Wayne Shorter.

Chano Domínguez, o Pai do Flamenco-Jazz



Sebastián Domínguez Lozano, conhecido musicalmente como Chano Domínguez, foi-me revelado pelo magnífico filme Calle 54, realizado em 2000 pelo espanhol Fernando Trueba (vivamente recomendado a quem ainda não tenha percorrido esta deslumbrante viagem pelo jazz latino).
Nascido em Cádiz, em 1960, não admira que os seus primeiros passos musicais tenham sido percorridos no flamenco e na guitarra, mas cedo se mudou para as teclas, primeiro numa banda rock (o grupo CAI, com quem gravou três discos entre 1978 e 1980) e mais tarde fundando o seu trio de jazz.
Chano Domínguez conseguiu fundir o jazz com o flamenco. Fernando Trueba afirma no filme que ele é o primeiro músico do mundo completamente bilingue no jazz e no flamenco. Mas para mim, mais importante do que o seu profundo conhecimento de ambos os géneros musicais, é a sua extraordinária e revolucionária capacidade para os fundir em algo novo e apelativo, o flamenco-jazz.
Chano foi o fundador do género que, desde então, tem atraído inúmeros músicos, não apenas do país vizinho mas de toda a América Latina, para as enormes potencialidades da aplicação da técnica jazzística à estética flamenca.
No seu piano ele toca tangos, tanguillos, alegrías, compás de bulerías, fandangos e soleás usando a tradicional estrutura do jazz, geralmente acompanhado por contrabaixo e caixa flamenca. Chegou mesmo à ousadia de acompanhar o bailarino Blás de Córdoba, no Festival de Flamenco de Sabadell, acompanhado ao piano, em vez da tradicional guitarra.
Esta e outras ousadias de Chano Domínguez valeram-lhe uma legião de seguidores, convites para trabalhar com os mais aclamados músicos de Espanha e de todo o mundo hispânico (como o dominicano Michel Camilo, o cubano Gonzalo Rubalcaba, o porto-riquenho Jerry González, os espanhóis Jorge Pardo, Carles Benavent, Tomatito e Paco de Lucia ou ainda os norte-americanos Herbie Hancock, Joe Lovano, Jack deJonhette ou Wynton Marsalis, entre muitos outros) e tornaram-no um dos músicos mais influentes da actual cultura hispânica.



Chano Domínguez
Hecho a Mano
SunnySide Records, 2002

A provar o que afirmo deixo-vos com um dos meus temas preferidos de Chano Domínguez, Alma de Mujer, extraído do seu disco Hecho A Mano (gravado pela Nuba Records em 1996 mas lançado apenas em 2002, pela Sunnyside Records) e em que o genial pianista andaluz é acompanhado por Javier Colina no contrabaixo, Guillermo McGuill na bateria, Tino di Geraldo na percussão, tablas, cajón, tamborim, etc e ainda com a participação em várias faixas do disco dos guitarristas Tomatito, Antonio Toledo, Nono Garcia e Tito Alcedo, bem como das vozes e palmas de Chonchi Heredia, Joaquin Grilo, Juan Diego e Lorenza Virseda. Um disco memorável e um verdadeiro ex-libris do talento deste invulgar pianista espanhol.
As fotos que acompanham o tema são de obras do genial arquitecto catalão, do início do séc XX, Antoni Gaudí, e foram tiradas por Roy Chen.

domingo, 3 de agosto de 2008

Agenda Jazz, 4 a 10 de Agosto de 2008



3ª Feira, 5 de Agosto

19.30h – Hotel D. Filipa (Vale de Lobo) – Orquestra Jazz de Lagos
22.30h – Ondajazz (Lisboa) - Guent's dy Rincon

4ª Feira, 6 de Agosto

22.00h – Estádio da Restinga (Alvor) – Paolo Conte
22.30h – Fábrica Braço de Prata (Lisboa) - JB ensemble (dir. Pedro Madaleno)
23.00h - Academia Municipal das Artes da Nazaré - Ilman Viiksia 4tet

5ª Feira, 7 de Agosto

21.30h – Gulbenkian (Lisboa) - Taylor Ho Bynum Sextet
22.00h – Cafetaria Quadrante – CCB (Lisboa) - The Living Thing Sextet
23.00h – Hot Club (Lisboa) - Francisco Pais Quartet
23.00h - Academia Municipal das Artes da Nazaré - João Capinha & Diabolus in Musica

6ª feira, 8 de Agosto

18.30h – Gulbenkian (Lisboa) - Memorize The Sky
21.30h – Gulbenkian (Lisboa) - Sylvie Courvoisier Lonelyville
22.00h – HotFive (Porto) - DITES 34
23.00h – Hot Club (Lisboa) - Francisco Pais Quartet
23.00h - Academia Municipal das Artes da Nazaré - Quinteto de André Murraças
23.30h – Ondajazz (Lisboa) - Nuno Costa Quarteto

Sábado, 9 de Agosto

15.30h – Gulbenkian (Lisboa) - Fritz Hauser
18.30h – Gulbenkian (Lisboa) - Pascal Contet & Barre Phillips
21.30h – Gulbenkian (Lisboa) - Peter Brötzmann Chicago Tentet
22.00h – São Martinho do Porto - Summer Jazz Orchestra & Rão Kyao
22.00h – Jardim do Palácio de Cristal (Porto) - Mário Laginha Trio
23.00h – Fábrica Braço de Prata – Nicole Eitner
23.00h – Hot Club (Lisboa) - Francisco Pais Quartet
23.00h - Praia da Vitória - Roomful Of Blues
23.00h - Academia Municipal das Artes da Nazaré - Mê-quintete
23.30h – Ondajazz (Lisboa) – Victor Zamora Trio

Domingo, 10 de Agosto

17.00h – Parque Eduardo VII (Lisboa) – Zurugudu
23.00h - Praia da Vitória - Lonnie Brooks

Lusitânia Jazz



João Paulo Trio
2 de Agosto de 2008
Fábrica Braço de Prata (Lisboa)
****

Depois das duas apresentações com o trio Nascer, o pianista João Paulo retomou o trabalho com o seu trio regular, composto por Mário Franco no contrabaixo e André Sousa Machado na bateria, para esta apresentação na sala Nietzsche da Fábrica Braço de Prata em Lisboa.
O repertório foi composto quase exclusivamente por originais seus e de Mário Franco, os primeiros fortemente influenciados pela tradição musical portuguesa (do fado ao folclore açoriano), mais abstractos e bopistas os segundos.
Foi assim uma apresentação intimista, de um lirismo bem integrado no ambiente romântico do espaço do Poço do Bispo, apenas quebrado pela boa disposição do pianista na condução desta viagem musical pelas raízes da lusitaneidade.
Mesmo quando abandona o cancioneiro sefardita, a música de João Paulo tem o raro dom de pôr a nu as raízes multiculturais da tradição musical nacional, quase sempre marcada por um dramatismo melódico e fatalista, que Mário Franco acompanhou com desenvoltura, numa brilhante exibição das suas amplas capacidades técnicas e interpretativas do contrabaixo (que não dispensaram o uso ocasional do arco, reforçando dessa forma o lirismo da apresentação).
O jazz melódico e primordial de João Paulo constrói-se a partir do património multissecular da tradição musical portuguesa, decomposto nas suas diversas partes, populares e eruditas, do folclore às etnias da lusofonia, passando naturalmente pelos universos musicais árabes e judaicos, tanto do seu agrado, mas também por sonoridades barrocas e até bizantinas que, num ou noutro tema, vieram à tona. Essa riqueza musical encontrou um seguimento natural mas inspirado na actuação de Mário Franco que, com a expressividade única do contrabaixo, reforçou a toada melancólica dos temas através de sucessivos solos de rara beleza e entrega, momentos altos desta belíssima apresentação do trio.
Sem evidenciar a loquacidade dos outros dois músicos, André Machado cotou a sua apresentação por uma contenção textural que serviu como uma luva aos ambientes nostálgicos criados pelo piano e contrabaixo. Apenas no final do concerto rubricou a sua apresentação com um delicioso solo, construído com recurso exclusivo às escovas, que ajaezadamente concluiu a apresentação colectiva e originalmente a sua própria.
Se existe um jazz marcadamente português nenhum outro músico como João Paulo consegue traçar com rigor os seus contornos.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Moderno e Antigo



Robin McKelle
Modern Antique
Cheap Lullaby Records 2008

Robin McKelle nasceu em Rochester, Nova Iorque, filha de um cantor litúrgico. Começou por estudar piano e frequentou a Universidade de Miami antes de rumar a Boston e ao Berklee College of Music, onde obteve o Bachelors of Music. Rumou então a Los Angeles onde iniciou uma carreira como backup singer. Actuou com músicos tão importantes quanto Herbie Hancock, Wayne Shorter, Terence Blanchard, Michael McDonald ou Jon Secada. Regressa então a Boston e ao Berklee College onde funda o seu trio. Em 2004 participa no Thelonious Monk Vocal Jazz Competition em Washington (competição que recentemente já lançou cantoras como Jane Monheit ou Roberta Gambarini), onde obtém o terceiro lugar. É-lhe então oferecido o lugar de solista na Boston Pops Orchestra.
Com o seu trio actuou perante grandes nomes da música como Bruce Lundvall (director da Blue Note), David Bowie, Carly Simon, Wayne Shorter, BeBe Winans ou Don Grusin, mas o seu primeiro disco “Introducing Robin McKelle” (Cheap Lullaby Records, 2006) acabou por ser financiado pelo seu próprio bolso, antes de uma pequena editora independente de Los Angeles, a Cheap Lullaby Records, se interessar pela sua distribuição. Com produção de Willie Murillo (produtor da Brian Setzer Orchestra, Aimee Mann ou da cantora country LeAnn Rimes) é um disco evocativo do espírito do jazz dos anos 40, embora com uma sonoridade muito contemporânea. A promover o disco surge o single "Bei Mir Bist Du Schoen” um velho sucesso de 1938 das Andrew Sisters que McKelle transforma numa sensual balada latina, cheia de ritmo.
Modern Antique (Cheap Lullaby Records, 2008) é o seu segundo trabalho onde a cantora mantém a intenção de homenagear as grandes vozes do jazz passado, de Billie Holiday a Sarah Vaughn, passando naturalmente pela incontornável Ella Fitzgerald. Menos intimista do que o primeiro disco, Modern Antique aparece com uma marcante secção de metais e muito swing, puxando sempre que pode os temas para ambiências latinas e efusivas.



Deixo-vos com os vídeos dos temas Bei Mir Bist Du Schoen e Abracadabra (um cover do sucesso da Steve Miller Band, lançado em 1982, o que não deixa de ser uma escolha curiosa para uma homenagem aos golden years do jazz norte-americano…) que Robin McKelle transfigura por completo, num arranjo com big band e carregado de swing.



quinta-feira, 31 de julho de 2008

Os Novos Silêncios de Cristal



Chick Corea & Gary Burton
The New Crystal Silence
Concord Records 2008

Este duplo CD marca o 35º aniversário da edição do disco homónimo que o duo gravou em 1972, para a ECM, e que constituiu a sua primeira colaboração (que no entanto foi estendida em múltiplas e regulares ocasiões de então para cá). Mas não é nem uma mera reedição comemorativa do mesmo nem tão pouco uma revisita refrescante aos temas constantes desse disco histórico. Na verdade apenas dois dos temas originais são agora revisitados: Crystal Silence e Señor Mouse, o primeiro numa versão orquestrada e o segundo interpretado em duo.
Este novo Crystal Silence divide-se claramente em duas partes completamente distintas, ambas registadas ao vivo. Um primeiro disco em que os solistas são acompanhados pela Orquestra Sinfónica de Sydney, com direcção e arranjos de Tim Garland, e um segundo disco, em duo, gravado no festival de Molde, na Noruega (à excepção do tema Senõr Mouse, gravado também ao vivo mas em Tenerife, nas ilhas Canárias).
O primeiro disco afirma-se sobretudo pela monumentalidade do trabalho de composição e orquestração exibido. Uma obra ambiciosa e tecnicamente soberba. O jazz, magnificamente representado pelos dois solistas, concerta-se com o trabalho orquestral de forma elegante, sofisticada mesmo, através de arranjos brilhantes que o elevam musicalmente, mas sem nunca o descaracterizar. Estamos assim perante um verdadeiro concerto para piano, vibrafone e orquestra, gravado ao vivo, onde várias influências confluem, lembrando ora os trabalhos de Gershwin quando os temas puxam para o blues (como é o caso de Duende), ora para manifestações impressionistas ou mesmo evocativas do nacionalismo musical que lembram os trabalhos orquestrais de compositores como Maurice Ravel, Igor Stravinsky ou Manuel de Falla. Isso é particularmente evidente nas abordagens ao flamenco em La Fiesta ou mesmo em Love Castle. Ocasionalmente surgem ainda ambientes mais cinemáticos onde as influências dos grandes compositores do cinema como John Williams (ou nas ambiências mais negras, de Danny Elfman) se tornam evidentes.
O segundo disco conta apenas com os dois solistas, adquirindo por isso um carácter necessariamente mais intimista. É um brilhante repositório do enorme talento e virtuosismo dos dois músicos envolvidos.
De uma alegria contagiante revela, a cada tema, as infindáveis capacidades técnicas dos músicos mas nunca de forma meramente gratuita ou exibicionista. Afigura-se, pelo contrário, como uma obra evocativa, não apenas de duas carreiras recheadas de talento e de sucesso, mas também de um património musical de que ambos são devedores, de Bud Powell a Bill Evans, passando por Nina Simone ou Wayner Shorter, ou pelos trabalhos de Corea com os Return to Forever como em No Mystery, Senõr Mouse, La Fiesta ou Brasília (esta do disco 1).
Estamos pois perante uma obra monumental e invulgar, um daqueles raros momentos mágicos em que a sensação de que se fez história transpira a cada compasso. Como amante do jazz "de câmara" confesso que me sinto mais em casa no intimismo do segundo disco. Porém tal não belisca minimamente a valia do trabalho registado no primeiro CD, absolutamente fantástico!
Um clássico, desde a hora em que foi colocado nos escaparates das lojas...
Absolutamente imperdível.



De Chick Corea já tudo foi dito e escrito, cotando-se como um dos mais importantes e prolíficos músicos dos últimos 40 anos, versando com a mesma mestria o jazz vanguardista, o bebop, a música infantil, a fusão, os sons latinos ou a música clássica.
Nasceu Armando Anthony Corea em Chelsea, Massachusetts, no dia 12 de Junho de 1941. Na sua formação (iniciada aos 4 anos de idade) foram importantes pianistas como Bud Powell (homenageado com um tema neste disco) ou Horace Silver (fundador dos Jazz Messangers, nascido Horace Ward Martin Tavares Silva, filho de pai cabo-verdeano, que homenageia no seu disco de 1965, The Cape-Verdean Blues). Ainda nos anos sessenta colaborou com ícones latinos como Mongo Santamaria ou Willie Bobo o que veio a revelar-se uma influência marcante ao longo da sua carreira. A sua estreia discográfica, como líder, aconteceu em 1966 com o disco “Tones for Joan’s Bones” com o trompetista Woody Shaw, o saxofonista e flautista Joe Farrell, o contrabaixista Steve Swallow e o baterista Joe Chambers. Em Março de 1968 grava Now He Sings, Now He Sobs, com Miroslav Vitous e Roy Haynes, um disco que ganhou o estatuto de clássico. Antes porém colaborou ainda com músicos tão importantes quanto Cal Tjader, Stan Getz, Dizzy Gillespie, Sarah Vaughn ou Donald Byrd, qualquer deles referências fundamentais neste período formativo da personalidade musical do jovem Chick Corea.
O ano de 1968 é marcante para Corea pois é chamado a substituir Herbie Hancock na banda de Miles Davis, com quem grava discos tão importantes na renovação do jazz quanto Filles de Kilimanjaro, In a Silent Way, Bitches Brew, Live-Evil e Live at the Fillmore East. Em finais de 1970 deixa, juntamente com o contrabaixista Dave Holland, o grupo de Miles Davis e funda, com Holland, o baterista Barry Altschul e o saxofonista Anthony Braxton, o quarteto Circle. Em 1971 muda novamente de direcção gravando a solo Piano Improvisations, Vol. 1 and 2, e fundando os Return do Forever com Stanley Clarke no baixo acústico, Joe Farrell no sax e flauta, Airto Moreira na bateria e percussão e a mulher deste, Flora Purim, na voz. Em Novembro de 1972, Chick grava o sublime Crystal Silence (pela ECM), a sua primeira colaboração com o vibrafonista Gary Burton.
A partir de 1973 os Return to Forever, nas suas sucessivas formações, vão-se afirmando, cada vez mais, como uma das mais importantes bandas de fusão, o novo movimento do jazz-rock tão em voga naqueles dias, com a entrada de músicos como Bill Connors, Lenny White ou o guitarrista virtuoso Al di Meola que, em 1974 e com apenas 19 anos, substitui Connors na formação liderada por Corea.
A ascensão do grupo a estrelas de rock não impediu contudo Corea de gravar, durante este período, discos mais pessoais e intimistas como The Leprechaun (Polydor, 1975) ou em 1976 My Spanish Heart, onde deu largas à sua paixão pelo flamenco. Em 1978 junta-se a Herbie Hancock e grava, a dois pianos, Homecoming para a Polydor e em 1980, pela Columbia, An Evening With Herbie Hancock and Chick Corea.
Em 1982 regressa ao flamenco em Compadres (com Paco de Lucia, Al di Meola, Lenny White e Stanley Clarke) e volta a colaborar com Gary Burton em Lyric Suite for Sextet, em que o duo se faz acompanhar por um quarteto de cordas.
No início de 1984 grava Three Quartets com Michael Brecker, Eddie Gomez e Steve Gadd e reedita o Trio com Miroslav Vitous e Roy Haynes, 13 anos depois, no disco Trio Music, gravado para a ECM.
A sua paixão pela fusão leva-o a fundar a Chick Corea Elektric Band, com o baterista Dave Weckl, o saxofonista Eric Marienthal, o baixista John Pattitucci e o guitarista Frank Gambale, gravando para a GRP várias obras entre 1986 e 1991. Mas Corea não esqueceu a música acústica mantendo, em simultâneo, a sua Akoustic Band, também com Patittucci e Weckl, com quem grava dois discos em 1989 e 1990.
Em 1992 Corea realiza o sonho antigo de fundar a sua própria editora, a Stretch Records, gravando, no início, projectos de Bob Berg, John Patitucci, Eddie Gomez e do guitarrista de blues Robben Ford. Os seus próprios trabalhos só transitam contudo para a Stretch, já integrada no universo da Concord Records, a partir de 1996, data em que termina a sua ligação à GRP. A sua primeira gravação para a Stretch foi Remembering Bud Powell, lançado em 1997, com o jovem saxofonista tenor Joshua Redman, Kenny Garrett no sax alto, Wallace Roney no trompete, Christian McBride no contrabaixo e Roy Haynes na bateria (que chegou a tocar com Powell nos anos 60). Ainda nesse ano grava com a Orquestra de Câmara de St. Paul, dirigida por Bobby McFerrin, com Gary Burton o disco Native Sense–The New Duets, e funda o sexteto Origin com Avishai Cohen, Steve Wilson, Steve Davis, Tim Garland e Jeff Ballard.
O novo milénio começa para Corea com “Corea Concerto” (Sony Classical, 2000) gravado com a London Philharmonic Orchestra e onde Chick apresenta o seu Concerto nº 1 para piano e orquestra, além de uma versão orquestrada de Spain.
Em 2001 apresenta um novo trio com o baterista Jeff Ballard e o contrabaixista israelita Avishai Cohen, em Past, Present & Futures (Stretch), envolvendo-se também em trabalhos em dueto com Bobby McFerrin, Gary Burton e o cubano Gonzalo Rubalcaba.
Em 2004 Corea reúne novamente a sua Elektric Band para o projecto, baseado na obra de ficção científica de L. Ron Hubbard, To The Stars, que prossegue em 2005 em The Ultimate Adventure, um exótica mistura de flamenco, de influências da música do Norte de África e do Médio Oriente.
Ao longo da sua carreira recebeu já 11 Grammys entre muitas outras distinções por todo o mundo.



Gary Burton nasceu em Indiana em 1943 e foi um auto didacta do vibrafone até entrar, muito tardiamente, no Berklee College of Music em Boston. Grava pela primeira vez aos 17 anos de idade, em Nashville, com os guitarristas Hank Garland e Chet Atkins. Toca com George Shearing e depois com Stan Getz, entre 1964 e 1966. Em 1967 deixa Getz e forma o seu próprio quarteto, com quem grava três discos para a RCA e estabelece uma sólida reputação como músico de fusão entre o jazz e o rock. É eleito, em 1968, Jazzman of the Year pela revista Down Beat. O Burton Quartet foi-se alargando e incluiu, nos anos 70, o jovem guitarrista Pat Metheny. Ainda neste período Burton grava em dueto com o contrabaixista Steve Swallow, o guitarrista Ralph Towner e o pianista Chick Corea.
Inicia também em 1971 a sua carreira como professor de percussão e improvisação no Berklee College of Music. Em 1985 é elevado a Dean of Curriculum, em 1989 recebe um doutoramento honoris causa e, em 1996, é eleito vice-presidente executivo da instituição. Abandona contudo o ensino em 2003.
Durante as décadas de 80 e 90 Burton grava para a GRP várias obras de que se destacam as colaborações com Pat Metheny e Chick Corea. A partir de 1997 grava, já pela Concord, Departure e Native Sense bem como dois discos dedicados a Astor Piazzolla, e mais recentemente, em 2002, dedica-se ao repertório clássico na companhia do pianista japonês Makoto Ozone.
A partir de 2003, liberto do seu trabalho como professor, funda o grupo Generations, composto por jovens talentos como o guitarrista de 16 anos, Julian Lage, ou o pianista russo Vadim Nevelovskyi, com quem tem apresentado, desde então, vários trabalhos, que intercala com colaborações com velhos e novos amigos como Pat Metheny, Chick Corea, Steve Swallow, António Sanchez, Makoto Ozone, o compositor e pianista espanhol Polo Orti, ou o acordeonista francês Richard Galliano.
Foi já galardoado com cinco Grammys, entre muitas outras distinções.

A ilustrar esta obra prima de Chick Corea e Gary Burton deixo-vos com o tema Waltz for Debby, um original de Bill Evans, composto nos anos 60, acompanhado de maravilhosas fotografias a preto e branco de Nova Iorque, da autoria de Didier Vanderperre.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Fim de Semana Musical No Braço de Prata



É sempre com dificuldade que vou tomando nota dos eventos musicais na Fábrica Braço de Prata, porquanto, nas palavras de um dos seus principais responsáveis, a Fábrica não tem um programa mas antes uma agenda. As coisa acontecem por lá, na medida da disponibilidade do tempo dos músicos e do espaço disponível.
Mesmo elaborando a agenda de jazz com uma escassa semana de antecedência esbarro quase sempre com a inexistência de um programa previsto para a Fábrica Braço de Prata.
Assim, se queremos estar informados sobre os importantes eventos culturais e musicais que aí sempre decorrem, temos de andar "em cima" do respectivo site http://www.bracodeprata.org/ ou então, melhor ainda, fazer-lhe umas visitas regulares na certeza de que há sempre alguma coisa a acontecer naquele extraordinário espaço lisboeta.
Deixo-vos pois com uma actualização da agenda, relativa aos eventos musicais da Fábrica Braço de Prata neste fim de semana , que no entanto, não garanto não venha a ser aditada...

5ª feira, 31 de Julho

22.00h - KORASONS Afro fusion world music
23.00h - Júlio Resende + Perico Sambeat
23.00h - Choro Livre
24.00h - Infrasonic – Free Jazz
01.00h - Pura Mistura – Percussão

6ª feira, 1 de Agosto

22.00h - Free Fucking Notes - Marta Plantier & Luís Barrigas
22.30h - Trisonte
23.00h - Júlio Resende Trio
24.00h - Soaked Lamb - Concerto de Blues

Sábado, 2 de Agosto

22.00h - João Paulo Trio
22.00h - Recital de guitarra com João Bastos
23.30h - Fados, com Hélder Moutinho e convidados
24.00h - Nicole Eitner (voz e piano)
24.00h - Uma coisa em forma de assim