quinta-feira, 10 de abril de 2008

Saxofones


Ensemble de Saxofones do Hot Club de Portugal
7 de Março de 2008 – 23.00h
Hot Club de Portugal – Lisboa
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Uma aposta inovadora esta de reunir no (pequeno, para tanta gente…) palco do Hot, cinco dos melhores saxofonistas nacionais, Pedro Moreira e César Cardoso, nos tenores, Jorge Reis e Zé Maria, nos altos, e Guto Lucena no barítono, acompanhados de uma secção rítmica de luxo, composta por Filipe Melo no piano, Bruno Santos na guitarra, Bernardo Moreira no contrabaixo e Alexandre Frazão na bateria (substituição de última hora, face ao programado André Sousa Machado). O resultado foi, no mínimo, original. Este noneto, composto com cinco saxofones, soou por vezes como uma big band e outras como um quarteto ou quinteto, permitindo aos excelentes saxofonistas que o compuseram, apresentar com detalhe os seus dotes de solistas de modo alternado (e por vezes sucessivo, gerando uma espécie de competição amigável entre eles). Entre os saxofones o maior destaque (ainda por cima alcançado de modo comparativo, mano a mano…) vai integralmente para Guto Lucena no barítono. Dono de uma fraseado seguro, expressivo e potente, encantou nos solos e destacou-se nas harmonias, contribuindo decisivamente para o sucesso da apresentação. Pedro Moreira esteve bem nos arranjos e direcção musical, consolidando um projecto raro, difícil e só ao alcance de músicos experimentados como os que estiveram em palco. Também Filipe Melo teve momentos de grande qualidade nos solos, sobretudo nos temas mais bopistas, em que a sua capacidade de improvisação se solta mais entusiasticamente, embalando-o para apresentações de pura classe jazzistica. Excelente trabalho ainda para Bernardo Moreira no contrabaixo que, confrontado com trabalho redobrado (ou quintuplicado…) face às numerosas presenças em palco, segurou de forma notável a apresentação com um fraseado seguro, potente e inventivo no contrabaixo. O mesmo se dirá de Alexandre Frazão, com um trabalho discreto (tocou vários temas pela pauta…), para os seus enormes dotes artísticos, mas de enorme segurança. Uma aposta ganha, daquelas que só o Hot consegue fazer.

Guto Lucena em vídeo

Pascal Schumacher Quartet - Monday Night at The Cat Club

Thursday Night at The Hot Club


Pascal Schumacher Quartet
28 de Fevereiro de 2008 – 23.00h
Hot Club de Portugal – Lisboa
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Um original quarteto composto pelo luxemburguês Pascal Schumacher, no vibrafone, pelos belgas Jef Neve e Christophe Devisscher, respectivamente no piano e contrabaixo (eléctrico) e pelo alemão Jens Düppe na bateria. À parte a curiosidade maior que constituiu a aparição do vibrafone (que apesar de amplamente usado no jazz, ainda não tinha merecido a minha estreia num concerto…) foi um espectáculo surpreendente e memorável. Pelo brilhantismo exibido pelos músicos, que no caso de Pascal Schumacher e de Jef Neve atingiu mesmo o sublime virtuosismo, pela beleza do reportório tocado, integralmente original (da autoria dos vários músicos que compõem o quarteto), sem esquecer a simpatia e capacidade de comunicação demonstrada pelo grupo. O jazz deste quarteto é profundamente original, intensamente expressivo, vai buscar influências despudoradamente à música clássica e barroca, aos autores contemporâneos, é minimalista quando assim o quer para, logo a seguir, intensificar o fraseado musical numa panóplia de sons e referências que não conseguem deixar ninguém indiferente. Schumacher é tecnicamente irrepreensível e de uma enorme capacidade de expressão, num instrumento original e nada fácil. Jef Neve é brilhante na abordagem do piano, com uma invejável capacidade interpretativa que extravasa o jazz e entra por caminhos reservados àqueles músicos eleitos que ainda conseguem, apesar de tudo já ter sido feito e ouvido, surpreender o público. Christophe Devisscher e Jens Düppe foram mais discretos, mas nem por isso menos brilhantes. Rubricaram solos e duos de grande talento e demonstraram uma integração notável com o grupo, em boa parte responsável pela conseguida apresentação. Num Hot à pinha, a sala foi pequena para tanto talento com que estes jovens músicos norte-europeus a encheram. Um concerto só ao alcance de músicos de grande classe.

Mayra Andrade

Sereia Crioula


Mayra Andrade
24 de Fevereiro de 2008 – 21.00h
São Luiz Teatro Municipal – Lisboa
UGURU
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A nova diva da música cabo-verdeana presenteou os portugueses com uma digressão nacional que incluiu este concerto no São Luiz, no qual se apresentou acompanhada de José Luís Nascimento, na bateria e percussão, Ricardo Feijão, na viola baixo, Nelson Ferreira e Tarcísio Gondim, nas violas, cavaquinhos e guitarra portuguesa e ainda da convidada Celina de Piedade, no acordeão.
O repertório incidiu sobretudo nos temas constantes do seu único disco, Navega, aos quais se juntaram alguns originais, porventura em ante estreia do previsível lançamento para breve do novo disco e ainda de um belíssimo fado original, em jeito de homenagem à cidade de Lisboa, e de uma velha morna, no primeiro encore, que trouxe a nostalgia atlante até à antiga sala lisboeta.
Seguríssima na voz e na presença, belíssima como poucas, Mayra soube encantar a plateia lisboeta com o seu canto melodioso de sereia crioula, ao qual juntou, sempre que pôde, um toquezinho de swing, proveniente da sua apreciável capacidade de improvisação e scat singing, à volta dos temas originais mas profundamente enraizados na cultura cabo-verdiana, que compõem o seu reportório, parcialmente composto por si.
Os músicos estiveram bem a acompanhá-la, apesar de alguns pequenos problemas técnicos terem impedido, sobretudo durante os temas iniciais do espectáculo, a percussão, bem entregue a José Luís Nascimento, de brilhar ao nível que merecia. Felizmente foram paulatinamente sendo resolvidos, a tempo de este brindar o público com um excelente solo de percussão, pleno de sensibilidade e bom gosto. Também as guitarras estiveram bem entregues, alternando os seus intérpretes em solos que enriqueceram o universo musical de Mayra Andrade com um sabor tropical que a sua deslumbrante imagem, só por si, já inspira. Em bom nível esteve também a viola baixo acústica (a fidelidade às origens assim obriga) e ocasionalmente a eléctrica entregues a Ricardo Feijão e bem assim a participação ocasional da sempre bem disposta Celina da Piedade, que até cantou com Mayra, fazendo coro nos temas mais emblemáticos da jovem cantora, nascida em Cuba, mas profundamente cabo-verdiana no sentimento expresso pelas suas músicas.
Foi mais uma belíssima noite musical de Cabo Verde, servida por uma das suas mais jovens, mais belas, mas também mais expressivas intérpretes, num São Luiz esgotado e rendido aos encantos da bela Mayra. Eu pelo menos rendi-me…

Guto Lucena

Jazz do "Al-Andaluz"


Ficções – Rui Luís Pereira “Dudas”
21 de Fevereiro de 2008 – 23.00h
Hot Club de Portugal – Lisboa
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Um projecto que conta já com quase vinte anos de percurso (com três álbuns entretanto gravados) mas que permanece quase desconhecido do público. Com enorme injustiça refira-se. É lamentável o pouco interesse demonstrado pelas editoras (o último disco foi editado pelo autor e esgotou-se em poucos meses…), numa época em que o jazz conquista novos públicos, ano após ano, por este projecto de fusão, extremamente meritório, que alia o jazz aos sons mediterrânicos, sejam eles oriundos de Portugal, da Andaluzia ou do Magreb. Quase exclusivamente baseado em originais do guitarrista, líder do projecto, Rui Pereira “Dudas”, ouviu-se também uma bonita versão de um tema do libanês Rabih Abou-Khalil, mostrando a importância da música magrebina no universo musical destas “Ficções”. Alternando entre a guitarra de 12 cordas e a de 6, originalmente acústicas mas amplificadas, “Dudas” mostrou-se um exímio executante de ambas, com um gosto muito especial pela fusão, inspirando-se no universo musical tradicional ibérico, incluindo o do Al-Andaluz. Mais impressionante ainda foi a sua capacidade de composição traduzida numa dezena de temas que, de forma rica, expressiva e apelativa, nos transportaram até um mundo musical novo e original, que combina elementos tão dispersos quanto o folclore lusitano e norte-africano, o flamenco e claro está o jazz, sem esquecer algumas incursões por terras brasileiras de onde surgiram contagiantes ritmos de choro e de baião. A acompanhá-lo estiveram os brasileiros Guto Lucena, no saxofone alto e na flauta, em excelente plano quer técnico quer na capacidade de improvisação demonstrada, contribuindo decisivamente para a original sonoridade do grupo, e Alexandre Frazão, sempre fenomenal na bateria, aqui sentindo-se como peixe na água, com o caminho aberto para as suas extraordinárias e infindáveis capacidades criativas na percussão. No baixo eléctrico e contrabaixo ouviu-se o italiano Massimo Cavalli, mais discreto mas demonstrando segurança e boa integração neste universo musical de “Dudas”. Finalmente no piano mostrou talento Filipe Raposo em solos bem conseguidos e integrados neste projecto assumidamente de fusão, mais rigorosos do que exuberantes mas ainda assim bem providos da criatividade jazzistica que se impunha. Uma viagem às mil e uma noites do jazz al-andaluz, com paragens obrigatórias em terras de Vera Cruz, pela mão segura de Dudas e dos seus pares. E deixou saudades.

Tomasz Stanko Quartet - Little Thing Jesus

Lontano


Lontano – Tomasz Stanko Quartet
20 de Fevereiro de 2008 – 21.30h
Grande Auditório da Culturgest – Lisboa
****,5

Esta bem podia ter sido a semana do trompete. Depois de Enrico Rava no CCB tivemos Tomasz Stanko na Culturgest, dois dos mais importantes e emblemáticos trompetistas europeus da actualidade. Os estilos são totalmente diferentes: Rava mais influenciado pelo trabalho dos ícones do jazz norte-americanos (com quem trabalhou assiduamente) Stanko com uma linguagem cool muito própria, feita do legado de Miles Davis (é sempre a referencia incontornável no trompete) e das influências musicais clássicas da sua Polónia natal e do universo jazzistico norte-europeu. Aliás se tais referências são notórias em Stanko mais ainda se evidenciam no trio que o acompanhou (o Simple Acoustic Trio, com um trabalho brilhante já gravado também pela ECM de Manfred Eicher) composto pelos jovens e talentosos Marcin Wasilewski no piano, Slawomir Kurkiewicz no contrabaixo e Michal Miskiewicz na bateria. Um luxo.
Wasilewski encantou no piano, com um fraseado original, contido mas profundamente expressivo, tecnicamente superior e influenciado pela música contemporânea europeia, do leste e do norte da Europa. Kurkiewicz no contrabaixo mostrou talento e desenvoltura, com uma soberba capacidade de improvisação e fantasia, garantindo a coesão assinalável do quarteto e a originalidade do respectivo som, exibindo técnica notável. Mais contido Miskiewicz na bateria. Nitidamente influenciado pela escola escandinava (veio-me à lembrança Magnus Östrom) pontificou a sua actuação por uma invejável contenção em prol do som colectivo, intimista, melódico em que o ritmo mais do que apropriar-se do som do grupo, serve altruisticamente a harmonia, em perfeita simbiose com os restantes instrumentos, não descurando o uso dos silêncios, quando tal se impõe.
Este Tomasz Stanko Quartet exprime assim, de forma notável e original, um jazz marcadamente europeu, despido de influências afro-americanas mas fortemente enriquecido com a tradição musical clássica e contemporânea do velho continente. Mas não se pense que soa frio e intelectual, como tantas experiências cacofónicas que proliferam por aí… Longe disso, a música de Stanko e dos seus pares é quente e melodiosa, quase romântica na forma apaixonada como comunica com o público, rapidamente deliciado e envolvido pelas doces harmonias produzidas pelo quarteto, para quem a improvisação surge como a forma natural de fazer música.
Uma noite memorável com alguns dos melhores intérpretes do jazz europeu e mundial da actualidade, mostrando a vitalidade da escola de jazz polaca (com várias gerações representadas em palco) e projectando-a internacionalmente. De modo inteiramente merecido.

Gianluca Petrella