Nova versão do vídeo que elaborei a partir do tema Aprés le Jeu, da autoria de Dal Sasso e incluído no álbum Influence (B Flat Recordings, 2005) da autoria dos irmãos Lionel e Stephane Belmondo e do octogenário saxofonista e flautista norte-americano Yusef Lateef. Um tema magnífico que funde o universo jazz com a beleza da melhor música barroca e que aqui surge acompanhado de belas fotos da Noruega da autoria de Wenche Aune. Podem vê-las em http://www.pbase.com/wenche_46/nature_bw Além de Yusef Lateef na flauta, de Stéphane Belmondo no trompete e de Lionel Belmondo na sax e clarinete, interpretam ainda o tema Glenn Ferris no trombone, Laurent Fickelson no piano, Paul Imm no contrabaixo e Dre Pallemaerte na bateria.
Stephane & Lionel Belmondo & Yusef Lateef - Aprés le Jeu
Quarteto Marta Hugon 13 de Dezembro de 2008, 23.00h Hot Club de Portugal (Lisboa) ****
Esta semana foi a vez do Quarteto de Marta Hugon subir ao palco do Hot, para um triplo concerto nos dias 11, 12 e 13 de Dezembro. Formado exclusivamente por ex-alunos e docentes da Escola de Jazz Luís Villas Boas do Hot Club de Portugal (Marta Hugon faz mesmo parte dos corpos directivos desta instituição), pode dizer-se que este Quarteto se apresentou em casa, o que foi notório no modo descontraído como decorreu a apresentação de Sábado, nomeadamente quando comparada com a recente presença no Seixal Jazz, de que já vos dei conta oportunamente. Com apenas dois discos editados, Tender Trap em 2006 e Story Teller este ano, esta formação ganhou já uma rara popularidade, fruto da coerência do seu repertório, da forma inteligente como se apropria de património musical estranho ao universo do jazz e, claro está, das inegáveis e enormes qualidades dos seus membros. Marta Hugon possui uma das mais doces e seguras vozes do jazz nacional, personalizada, expressiva e muito bela (à sua semelhança, aliás). Filipe Melo é uma referência no piano e nos arranjos, um dos mais talentosos músicos portugueses da sua geração, responsável pelo enorme swing que brota da música desta formação e pelos inconfundíveis riffs de blues que, a propósito, povoam os sons do quarteto. Mas a consistência da música de Marta Hugon passa também, e muito, pela enorme classe e experiência da sua secção rítmica, formada pela omnipresença de Bernardo Moreira no contrabaixo e pelo vigor de André Sousa Machado na bateria. Nos dois primeiros concertos esteve igualmente presente André Fernandes na guitarra, o quinto elemento do grupo cuja presença em estúdio enriqueceu fortemente a gravação de Storyteller (o sexto membro em estúdio foi o trompetista João Moreira, que contudo não costuma apresentar-se frequentemente em palco com o quarteto). Esta apresentação serviu ainda para dar a conhecer alguns temas novos, porventura preparados a pensar na gravação, para breve, de um terceiro disco. Aqui notou-se a continuada apropriação do grupo de temas oriundo do universo musical do rock independente. Depois das adaptações de River Man de Nick Drake e de Crash Into Me de Dave Matthews (ao qual poderíamos juntar Still Crazy After All These Years de Paul Simon) surgem agora versões de David Sylvian, dos Radiohead e, facto importante, a estreia de um original de André Fernandes, com letra de Marta Hugon, denominado Time. O jazz standard é um conceito evolutivo. Por mais geniais que sejam os clássicos de George Gershwin, de Cole Porter ou de Rodgers e Hammerstein, cada geração possui as suas próprias referências. Nada mais natural portanto que utilizá-las na construção da sua identidade musical, residindo aí grande parte da apelatividade do jazz: nessa enorme capacidade de integração em qualquer universo musical; na intemporalidade da sua linguagem. Está pois no bom caminho a música de Marta Hugon. A prová-lo esteve este concerto memorável, com direito a dois encores, consagração absoluta perante o exigente público do Hot.
Nesta quadra vem a propósito desejar a todos os visitantes do Riffs & Strides um Feliz Natal, com boa música, como não podia deixar de ser... Por isso deixo-vos um tema de Natal pela grandiosa voz de Dianne Reeves: This Time of Year, um clássico de Brook Brenton e Clyde Otis, imortalizado pelo saudoso Ray Charles.
António Pinho Vargas - Solo Domingo, 14 de Dezembro, 22.00h Casa da Música, Porto
António Pinho Vargas nasceu em Vila Nova de Gaia, a 15 de Agosto de 1951. Formou-se em História na Universidade do Porto. Estudou no Conservatório de Roterdão, a partir de 1987, e formou-se em Composição. É professor de Composição na Escola Superior de Música, em Lisboa, desde 1991. É um dos nomes principais do Jazz em Portugal, que nos últimos anos substituiu por trabalhos nas áreas da música contemporânea, da composição para filmes, peças de teatro e até ópera. O seu primeiro disco foi Outros Lugares, editado em 1983. As suas colaborações com o saxofonista José Nogueira ficaram na história do jazz nacional, alcançando um inusitado sucesso na década de 80, para obras de jazz. Este ano António Pinho Vargas dedicou-se a revisitar a sua obra de jazz, editando um disco a solo onde desenvolve novas versões dos seus velhos sucessos dos anos 80, como Tom Waits, Vilas Morenas ou As Mãos. Esta semana vai tocar em casa, na Casa da Música no Porto. Um concerto a não perder!
António Pinho Vargas – Tom Waits (CCB, Julho de 2008)
Quarteto de Marta Hugon - Story Teller Hot Club de Portugal 5ª feira, 11 de Dezembro, 23.00h 6ª feira, 12 de Dezembro, 23.00h Sábado, 13 de Dezembro, 23.00h
Esta semana o quarteto de Marta Hugon vai apresentar-se em três concertos, Quinta, Sexta-feira e Sábado, sempre às 23.00h, no Hot Club de Portugal. Uma oportunidade de ouro para assistir, ao vivo, à apresentação de uma das mais completas vocalistas nacionais de jazz da nova geração. Com dois discos gravados, Tender Trap (Som Livre, 2006) e Story Teller (Iplay, 2008), Marta Hugon vai apresentar-se acompanhada pelo seu habitual quarteto, formado por Filipe Melo no piano, Bernardo Moreira no contrabaixo e André Sousa Machado na bateria, a que poderá juntar-se (se a ocasião se proporcionar) André Fernandes na guitarra, também ele contribuinte na gravação do mais recente trabalho do quarteto. Em jeito de aperitivo, aqui ficam três temas de Marta Hugon: Too Close For Confort, do disco Tender Trap, Crash Into Me e River Man, do mais recente Storyteller.
23.30h – Catacumbas (Lisboa) - Quarteto de Paulo Grilo
3ª feira, 9 de Dezembro
21.30h – Biblioteca Municipal de Lagos - Hugo Alves Sons e Palavras 22.30h – Ondajazz (Lisboa) – Big Band Reunion 23.30h – Catacumbas (Lisboa) - Messias & The Hot Tone Blues
4ª feira, 10 de Dezembro
17.30h – Estação de Metro do Campo Grande (Lisboa) – Saxofone & DJ 22.00h – Hot Five (Porto) - Jam Session Porto All-Stars 22.00h – Chapitô (Lisboa) - Tiago Santos 22.30h – Ondajazz (Lisboa) - Triângulo 23.00h – Parágrafo (Almada) – Flow 23.30h – Maxime (Lisboa) – DRU 23.30h – Catacumbas (Lisboa) - Carlos Sério Trio
5ª feira, 11 de Dezembro
21.30h – Centro Cultural de Chaves - João Gentil & Luís Formiga 21.30h – Livraria Trama (Lisboa) - Groove 4tet 22.00h – Salão Brazil (Coimbra) - Gonçalo Marques Trio 23.00h – Hot Club (Lisboa) - Marta Hugon Quarteto 23.30h – Catacumbas (Lisboa) - Catman & Friends Play The Blues
6ª feira, 12 de Dezembro
23.00h – Cine-Teatro de Estarreja - João Gentil & Luís Formiga 23.00h – Hot Club (Lisboa) - Marta Hugon Quarteto 23.30h - Ondajazz (Lisboa) – Musicophilos
Sábado, 13 de Dezembro
22.00h – Hot Five (Porto) - Minnemann Blues Band 23.00h – Hot Club (Lisboa) - Marta Hugon Quarteto 23.00h – Zé dos Bois (Lisboa) – Luís Lopes 23.30h – Ondajazz (Lisboa) – Filipa Ruas & The Shortcuts
Domingo, 14 de Dezembro
22.00h – Casa da Música (Porto) – António Pinho Vargas
Regresso com um novo video ao tema Knives Out, dos Radiohead, numa versão de Nelson Cascais inserida no seu disco Nine Stories, gravado em Novembro de 2004 no Mercado de Sant'Ana, em Leiria e editado em 2005 pela Tone of a Pitch. Além de Nelson Cascais, no contrabaixo, participam no disco e no tema Pedro Moreira, nos saxofones, Jesse Chandler, nos teclados, Bruno Pedroso, na bateria, e André Fernandes, nas guitarras.
O acordeão não será dos instrumentos de maior tradição no jazz. O que não impediu que a renovação do tango, inventada por Piazzolla no seu bandoneon, seduzisse os seguidores da estética jazzística, abrindo caminhos à colaboração de músicos de jazz com o mestre argentino, que ficaram nos anais do género norte-americano. Também em França, país onde o acordeão goza de merecida reputação, pois representa a alma da valse musette, muitos tentaram adaptar as palhetas ao jazz. E porque não? Não será o jazz uma derivação do blues e a harmónica um dos instrumentos que melhor representa a essência deste fado, nascido na Louisiana? Um dos melhores exemplos da aplicação do acordeão ao jazz é, indiscutivelmente, o franco-italiano Richard Galliano. Nas mãos de Galliano as palhetas livres multiplicam-se e o tango vira jazz, enquanto o jazz vira valsa. Virtuoso como poucos, tem colaborado com alguns dos melhores músicos de jazz do mundo e conseguiu provar, sem sombra de dúvida, a pertinência do jazz tocado ao ritmo do fole. Tamanho sucesso não passou despercebido e Galliano fez escola. Em França muitos acordeonistas têm-lhe seguido os passos e um dos que mais deu nas vistas, nos últimos tempos, foi Daniel Mille. Um encontro fortuito com Richard Galliano nos corredores do metro de Paris mudou a vida deste jovem músico francês, nascido em Grenoble. Com 10 anos de carreira Daniel Mille começou por casar o seu acordeão apenas com a guitarra. Mas o seu enorme talento começou a exigir mais e as colaborações com grandes músicos, oriundos do jazz, da música popular ou clássica, não tardaram. Nomes como Salif Keita, Georges Moustaki, Jacques Higelin, Maurane, Lokua Kanza, Claude Nougaro, Baden Powel, David Linx, Minelo Cinelu, Marcio Faraco, Richard Bona e Helen Merril fazem parte do seu currículo de colaborações. O culminar desse processo foi a atribuição em 2006 do prestigiado prémio Victoires du Jazz. Neste Aprés La Pluie, gravado em 2005, Mille faz-se acompanhar por Stéphane Belmondo no trompete, Remy Vignolo no baixo, Eric Legnini no piano e Pascal Rey na bateria, sem esquecer a presença ocasional de um quarteto de cordas. O resultado é lento e belo. A valsa, o jazz, o tango e a bossanova fundem-se nas sedosas notas extraídas do acordeão de Mille, com o trompete de Belmondo a glosar, em blues, as intemporais melodias que vão saindo dos instrumentos. Do inevitável Piazzolla (Oblivion) ao brasileiro Cartola (As Rosas Não Falam) passando pelos originais de sua autoria (Aprés la pluie, La valse des adieux, Les soirs de pleine lune e L’ultimo giorno), de Jean-Pierre Mas (Juste avant) e de Daniel Goyone (Ouro Preto), a música de Mille parte da tradição francesa em busca das Américas. Desiludam-se os que gostariam de encontrar neste disco a sede da experimentação, as ousadias ou a erudição da contemporaneidade. A música de Daniel Mille busca, pelo contrário, a beleza da simplicidade, a poesia da melodia, o arrepio do silêncio. Para o puro prazer do ouvinte. É assim um disco intemporal. Capaz de agradar aos saudosistas com a mesma apelabilidade com que seduz os mais avisados modernistas. Merece por isso uma enorme chapelada. Deixo-vos com o tema Ouro Preto, uma homenagem de Daniel Goyone à belíssima cidade mineira, de tal forma perspicaz que poderia ter sido escrita por um músico brasileiro (o nome de Milton Nascimento veio-me à lembrança quando ouvi o tema pela primeira vez), brilhantemente interpretada por Daniel Mille e pelos seus pares com fotos do brasileiro Flávio Veloso, a quem deixo igualmente a minha homenagem e agradecimento. Podem ver os seus trabalhos em http://www.pbase.com/flavioveloso
Maria João & Mário Laginha Chocolate 5 de Dezembro de 2008, 21.00h Grande Auditório do CCB (Lisboa) *****
Vinte e cinco anos a cantar jazz em Portugal é obra. Ainda mais do jeito tão especial quanto Maria João e Mário Laginha nos habituaram. Fiéis aos seus princípios de imprimirem uma indelével marca pessoal em tudo o que fazem (uma impressão digital, nas emocionadas palavras de Maria João) e de levarem até às últimas consequências a sua irreverência musical, este duo que, na verdade, nunca o foi, pois esteve sempre acompanhado por alguns dos melhores músicos que pisaram os palcos nacionais, é hoje indiscutivelmente uma instituição da música portuguesa e internacional. Numa busca incessante de um estilo próprio de viver a música, construído a partir de uma raiz jazzística mas fortemente informado pelos sons de África, da infância de Maria João, mas também do Brasil (a que não será alheia a constante presença de Yuri Daniel e de Alexandre Frazão nos seus sucessivos trabalhos) e da música tradicional portuguesa, Maria João e Mário Laginha conseguiram vencer resistências, conformismos e preconceitos e fazer escola. A história destes 25 anos é também a história da escola de jazz Luís Villas-Boas do Hot Club de Portugal, onde ambos se conheceram, aprenderam muito e ensinaram mais ainda. Transformaram-se nos mais mediáticos embaixadores da nova geração de músicos de jazz nacionais e numa referência incontornável para todos os que acreditam que, como eles, é possível fazer jazz de enorme qualidade em Portugal e levá-lo aos mais importantes palcos do mundo. Neste concerto propuseram-nos um regresso às origens. Aos standards que, nas mãos de Mário Laginha e na voz de Maria João, nunca o são verdadeiramente, de tal forma se apropriam de tudo o que tocam e cantam. Maria João, como habitualmente, com as emoções à flor da pele, num autêntico carrossel de sentimentos, de ritmo e de expressão. Mário Laginha com o virtuosismo nos arranjos e no piano que lhe é reconhecido. O regresso às origens fez-se também pela exuberância de Alexandre Frazão na bateria, parceiro maior e de sempre neste projecto. Pela imperturbável confiança de Bernardo Moreira no contrabaixo, colaborador assíduo do pianista, de há largos anos, e também ele fruto desta primeira geração da escola do Hot. E pela criatividade de Julian Argüelles nos saxofones, um músico que começa a ganhar um lugar de destaque na música portuguesa, de tal forma tem aparecido ligado aos mais relevantes projectos desenvolvidos no jazz nacional, nomeadamente os protagonizados por Mário Laginha. Foi assim uma viagem plena de emoções. Onde ao lado dos novos temas como “I’ve Grown Accustomed to His Face” surgiram pérolas do passado como “Beatriz”, um tema composto por Chico Buarque e Edu Lobo e que se transformou num hino ao bom gosto e ao enormíssimo talento de Maria João e Mário Laginha. O momento mágico do espectáculo. Silêncio absoluto de uma plateia rendida à maravilhosa interpretação de uma das mais sublimes exibições de beleza musical que a música portuguesa conseguiu produzir. Foi um inesquecível privilégio. Venham os próximos 25 anos que, a avaliar pelo espectáculo desta noite, prometem celebrações com enorme pompa e circunstância.
João Paulo Esteves da Silva continua a constituir um dos mais preciosos tesouros escondidos da música nacional. Com uma já longa e prolífica carreira, pontuada por inúmeras colaborações com alguns dos mais prestigiados músicos portugueses, no que toca aos seus trabalhos como líder permanece famoso entre os mais fiéis seguidores da estética jazzística mas quase desconhecido do grande público. No seu trabalho Nascer, editado em 2001 (MA recordings), propôs-nos uma deslumbrante viagem pelas raízes sefarditas da música tradicional lusa, na qual se fez acompanhar pelo acordeonista (e pianista) Ricardo Dias, responsável também por alguns dos arranjos inseridos no disco, e pelo saxofonista norte-americano Peter Epstein. O resultado é um extraordinário projecto onde, com enorme sensibilidade e respeito pela tradição, se põe a nú a história musical da nação lusitana, nas suas diversas fontes e influências. Um trabalho que urge conhecer! Aqui fica um novo vídeo do tema Deolinda, uma canção popular portuguesa com arranjo de Ricardo Dias, acompanhada de fotos da minha autoria a que chamei "Alentejo Minimal", e que constituem uma tentativa de captar, em pequenos detalhes, o espírito desta extraordinária região portuguesa, onde esses traços mouriscos e sefarditas da tradição esmiuçada por este magnífico trio, melhor se fazem sentir: na arquitectura, na paisagem, na música e nos costumes.
João Paulo, Ricardo Dias e Peter Epstein - Deolinda